<?xml version='1.0' encoding='UTF-8'?><?xml-stylesheet href="http://www.blogger.com/styles/atom.css" type="text/css"?><feed xmlns='http://www.w3.org/2005/Atom' xmlns:openSearch='http://a9.com/-/spec/opensearchrss/1.0/' xmlns:georss='http://www.georss.org/georss' xmlns:gd='http://schemas.google.com/g/2005' xmlns:thr='http://purl.org/syndication/thread/1.0'><id>tag:blogger.com,1999:blog-32811404</id><updated>2011-12-05T12:30:36.897-04:00</updated><category term='Kant'/><category term='Preconceitos'/><category term='determinismo'/><category term='metafísica'/><category term='juízos sintéticos a priori'/><category term='Platão'/><category term='Epicuro'/><category term='Espinosa'/><title type='text'>NIETZSCHE</title><subtitle type='html'>Este blog foi criado em homenagem ao maior filósofo da História da Humanidade:

Friedrich Wilhelm NIETZSCHE.</subtitle><link rel='http://schemas.google.com/g/2005#feed' type='application/atom+xml' href='http://nietzschebrasil.blogspot.com/feeds/posts/default'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/32811404/posts/default?max-results=100'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://nietzschebrasil.blogspot.com/'/><link rel='hub' href='http://pubsubhubbub.appspot.com/'/><author><name>Alexandre Anello</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06749747605638893158</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='31' height='32' src='http://bp2.blogger.com/_L5qoaf3Xi3U/SE3s_fYeVLI/AAAAAAAAABo/CvlzcwYBP3c/S220/Baselworld2005.JPG'/></author><generator version='7.00' uri='http://www.blogger.com'>Blogger</generator><openSearch:totalResults>9</openSearch:totalResults><openSearch:startIndex>1</openSearch:startIndex><openSearch:itemsPerPage>100</openSearch:itemsPerPage><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-32811404.post-3689417682509851249</id><published>2008-11-28T23:35:00.004-04:00</published><updated>2008-12-03T17:15:46.951-04:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Kant'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='juízos sintéticos a priori'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Platão'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Preconceitos'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='determinismo'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Espinosa'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='metafísica'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Epicuro'/><title type='text'>OS PRECONCEITOS DOS FILÓSOFOS</title><content type='html'>&lt;a onblur="try {parent.deselectBloggerImageGracefully();} catch(e) {}" href="http://4.bp.blogspot.com/_L5qoaf3Xi3U/STDFbYCEwcI/AAAAAAAAACg/5U8Ryp4FQ4c/s1600-h/Nietzsche187a.jpg"&gt;&lt;img style="margin: 0px auto 10px; display: block; text-align: center; cursor: pointer; width: 293px; height: 320px;" src="http://4.bp.blogspot.com/_L5qoaf3Xi3U/STDFbYCEwcI/AAAAAAAAACg/5U8Ryp4FQ4c/s320/Nietzsche187a.jpg" alt="" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5273932237749141954" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="text-align: right;"&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;&lt;span style="font-weight: bold;"&gt;Fonte: Para Além do Bem e do Mal&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-weight: bold;"&gt;1. &lt;/span&gt;&lt;br /&gt;O amor pela verdade que nos conduzirá a muitas perigosas aventuras, essa famosíssima veracidade de que todos os filósofos sempre falaram respeitosamente — quantos problemas já nos colocou! E problemas singulares, malignos, ambíguos! Apesar da velhice da estória, parece que acaba de acontecer. Se acabássemos, por esgotamento, sendo desconfiados e impacientes, que haveria de estranho? É estranhável que essa esfinge nos tenha levado a nos formular toda uma série de perguntas? Quem afinal vem aqui interrogar-nos? Que parte de nós tende "para a verdade?" Detivemo-nos ante o problema da origem dessa vontade, para ficar em suspenso diante de outro problema ainda mais importante? Interrogamo-nos sobre o valor dessa vontade. Pode ser que desejamos a verdade, mas por que afastar o não verdadeiro ou a incerteza e até a ignorância? Foi a problema da validade do verdadeiro que se colocou frente a nós ou fomos nós que o procuramos? Quem é Édipo aqui? e quem é a Esfinge? Encontramo-nos frente a uma encruzilhada de questões e problemas. E parece, afinal de contas, que não foram colocados até agora, que fomos os primeiros a percebê-los, que nos atrevemos a confrontá-los, já que implicam um risco, talvez o maior dos riscos.&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight: bold;"&gt;2.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;Nossas mentes rechaçam a idéia do nascimento de uma coisa que pode nascer de. uma contrária, por exemplo: a verdade do erro; a vontade do verdadeiro da vontade do erro; o ato desinteressado do egoísmo ou a contemplação pura do sábio, da cobiça. Tal origem parece impossível: pensar nisso parece próprio de loucos. As realidades mais sublimes devem ter outra origem, que lhes seja peculiar. Não pode ser sua mãe esse mundo efêmero, falaz, ilusório e miserável, esta emaranhada cadeia de ilusões, desejos e frustrações. No seio do ser, no qual não morrerá nunca, num deus oculto, na “coisa em si” é onde deve se lobrigar seu princípio, ali e em nenhuma outra parte. &lt;span style="font-weight: bold;"&gt;Este é o preconceito característico dos metafísicos de todos os tempos, este gênero de apreciação se encontra na base de todos seus procedimentos lógicos&lt;/span&gt;. A partir desta "crença" esforçam-se em alcançar um “saber”, criam a coisa que, afinal, será pomposamente batizada com o nome de "verdade". A crença medular dos metafísicos é a crença na antinomia dos valores. Nem aos mais avisados dentre eles ocorreram dúvidas desde o início, quando teria sido mais necessário: ainda que tivessem feito vota  "de onnibus dubitandum". Entretanto, deve-se duvidar, imediatamente, da existência de antinomias; depois dever-se-ia perguntar se as valorações e as oposições de valores usuais às quais os metafísicos apuseram seu sinete, não são apenas valorações superficiais, perspectivas momentâneas, tomadas a partir de um ângulo determinado, perspectivas de peixe, no faizão dos pintores. Qualquer que seja o valor que concedamos ao verdadeiro, à veracidade, ao desinteresse, poderia acontecer que nos víssemos obrigados a atribuir à aparência, à vontade da ilusão, ao egoísmo e à cobiça, um valor superior e mais essencial à vida; poder-se-ia chegar a supor inclusive que as coisas boas têm um valor pela forma insidiosa em que estão emaranhadas e talvez até cheguem a ser idênticas em essência às coisas más que parecem suas contrárias. Talvez! ... mas há quem se preocupe com esses perigosos 'talvez'? Esse terá que esperar a chegada de uma nova espécie de filósofos, diferentes em gostos e inclinações a seus predecessores: filósofos do perigoso 'talvez', em todos os sentidos da palavra. Falo com toda sinceridade, pois vejo a vinda desses novos filósofos...&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight: bold;"&gt;3.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;Terminei por acreditar que a maior parte do pensamento consciente deve incluir-se entre as atividades instintivas sem se excetuar a pensamento filosófico. Cheguei a essa idéia depois de examinar detidamente o pensamento dos filósofos e de ler as suas entrelinhas. Ante esta perspectiva será necessário revisar nossos juízos a esse respeito, como já o fizemos a respeito da hereditariedade e as chamadas qualidades 'inatas'. Assim como o ato do nascimento tem pouca importância relativamente ao processo hereditário, assim também o "consciente" não se opõe nunca de modo decisivo ao instintivo. A maior parte do pensamento consciente de um filósofo está governada por seus instintos e forçosamente conduzido por vias definidas. &lt;span style="font-weight: bold;"&gt;Atrás de toda lógica e da aparente liberdade de seus movimentos, há valorações, ou melhor, exigências fisiológicas impostas pela necessidade de manter um determinado gênero de vida. Daí a idéia, por exemplo, de que tem mais valor o determinado que o indeterminado, a aparência menos valor que a "verdade"&lt;/span&gt;. Apesar da importância normativa que tem para nós, tais juizes poderiam ser apenas superficiais, uma espécie de tolice, necessária para a conservação de seres como nós. &lt;span style="font-weight: bold;"&gt;Naturalmente, aceitando que o homem não seja, precisamente, a "medida das coisas"...&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight: bold;"&gt;4.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;A falsidade de um juízo não pode constituir, em nossa opinião, uma objeção contra esse juízo. Esta poderia ser uma das afirmativas mais surpreendentes de nossa linguagem. A questão é saber em que medida este juízo serve para conservar a espécie, para acelerar, enriquecer e manter a vida. Por princípio estamos dispostos a sustentar que os juízos mais falsos (e entre estes os "juízos sintéticos a priori") são para nós mais indispensáveis, que o homem não poderia viver sem as ficções da lógica, sem relacionar a realidade com a medida do mundo puramente imaginário do incondicionado e sem falsear constantemente o mundo através do número; renunciar aos juízos falsos eqüivaleria a renunciar à vida, a renegar à vida. &lt;span style="font-weight: bold;"&gt;Admitir que o não-verdadeiro é a condição da vida, é opor-se audazmente ao sentimento que se tem habitualmente dos valores. Uma filosofia que se permita tal intrepidez se coloca, apenas por este fato, além do bem e do mal.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight: bold;"&gt;5.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;O que nos incita a olhar todos os filósofos de uma só vez, com desconfiança e troça, não é porque percebemos quão inocentes são, nem com que facilidade se enganam repetidamente. Em outras palavras, não é frívolo nem infantil indicar a falta de sinceridade com que elevam um coro unânime de virtuosos e lastimosos protestos quando se toca, ainda que superficialmente, o problema de sua sinceridade. Reagem com uma atitude de conquista de suas opiniões através do exercício espontâneo de uma dialética pura, fria e impassível, quando a realidade demonstra que a maioria das vezes apenas se trata de uma afirmação arbitrária, de um capricho, de uma intuição ou de um desejo intimo e abstrato que defendem com razões rebuscadas durante muito tempo e, de certo modo, bastante empíricas. Ainda que o neguem, são advogados e freqüentemente astutos defensores de seus preconceitos, que eles chamam "verdades". E ainda que não o creiam, estão muito longe de possuir o heroísmo próprio da consciência que se confessa a si mesma sua mentira, isto é, muito longe do valor que se deseja ouvir, seja para advertir um amigo ou para colocar em guarda o inimigo ou para burlar a si mesmo. &lt;span style="font-weight: bold;"&gt;A hipocrisia rígida e virtuosa com que o velho Kant nos leva por todas as veredas de sua dialética para nos induzir a aceitar seu imperativo categórico, é um espetáculo que nos faz sentir o imenso prazer de descobrir as pequenas e maliciosas sutilezas dos velhos moralistas e dos pregadores&lt;/span&gt;. &lt;span style="font-weight: bold;"&gt;Somemos a tudo isso o malabarismo, pretensamente matemático, com que Spinoza termina por escudar e mascarar sua filosofia, tratando de intimidar assim, desde o princípio, a audácia do assaltante que&lt;/span&gt; &lt;span style="font-weight: bold;"&gt;se atreve a pôr os olhos numa virgem invencível: Palas Atenéia&lt;/span&gt;. Como se pode ver através de tão pequeno broquei e inútil máscara, a timidez e a vulnerabilidade de um ente doente e solitário.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;span style="font-weight: bold;"&gt;6. &lt;/span&gt;&lt;br /&gt;Passo a passo, fui descobrindo que até o presente, em toda grande filosofia se encontram enxertadas não apenas a confissão espiritual, mas suas sutis "memórias", tanto se assim o desejou seu autor quanto se não se apercebeu disso. Mesmo assim, &lt;span style="font-weight: bold;"&gt;observei que em toda filosofia as intenções morais (ou imorais) constituem a semente donde nasce a planta completa&lt;/span&gt;. &lt;span style="font-weight: bold;"&gt;Com efeito, se queremos explicar como nasceram realmente as afirmações metafísicas mais transcendentes de certos filósofos, seria conveniente perguntar-nos antes de tudo: A que moral querem conduzir-nos? A resposta, a meu ver, é que não se pode crer na existência de um "instinto do conhecimento", que seria o pai da filosofia. Pelo contrário, acredito que outro instinto tenha se servido do conhecimento (ou do desconhecimento) como instrumento, porém se examinássemos os instintos fundamentais, no homem, no intento de saber até que ponto os filósofos puderam divertir-se em seu papel de gênios inspiradores  (de daimons ou de duendes), veríamos que todos fizeram filosofia um dia ou outro, e que cada um deles considera sua filosofia como fim único da existência, como dona legítima dos demais instintos&lt;/span&gt;. Pois não é menos certo que todo instinto quisesse chegar ao predomínio e,  enquanto tal, aspira a filosofar. Pode, entretanto, acontecer doutro modo, inclusive "melhor" se se desejar entre os sábios, entre os espíritos verdadeiramente científicos, porque, penso, talvez haja neles algo parecido ao instinto do conhecimento, algo parecido a uma pequena peça de relojoaria independente e, bem montada, cumpra sua tarefa sem que os demais instintos do sábio participem dela de modo essencial. De acordo com o que vemos e pensamos, os verdadeiros "interesses" do sábio se encontram geralmente noutra parte: por exemplo, na política, na sua família, no seu meio de subsistência. Daí torna-se inclusive indiferente que o sábio aplique seu pequeno mecanismo a um determinado problema científico, e pouco importa que o sábio do "porvir" (jovem sábio) se converta num bom filósofo, num bom conhecedor de cogumelos ou num bom químico. No filósofo, nada há que possa ser considerado impessoal. Quanto à sua moral, oferece particular e muito especialmente um testemunho claro e decisivo do que é, quer dizer, da hierarquia que seque nele os instintos mais íntimos de sua natureza.&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight: bold;"&gt;7. &lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight: bold;"&gt;Até que grau pode chegar a malícia dos filósofos?&lt;/span&gt; Repassando a história da pensamento filosófico, talvez não se encontre nada mais venenoso que a glosa que Epicuro se permitiu contra Platão e seus seguidores: chamava-os &lt;span style="font-style: italic;"&gt;dionysiokolakes&lt;/span&gt;.  Esta palavra significa etimologicamente, e à primeira vista "aduladores de Dionísio" isto é, literalmente expressando: "esbirros do tirano", vis cortesãos, porém significa ainda, que não eram mais que simples comediantes, sem a menor sombra de seriedade (uma vez que &lt;span style="font-style: italic;"&gt;Dionysokolox&lt;/span&gt; era uma designação popular do comediante). &lt;span style="font-weight: bold;"&gt;Nesta última interpretação, se fazia patente o veneno que Epicuro lançava contra Platão.&lt;/span&gt; Sentia-se humilhado pelo porte majestoso, pelas hábeis entradas que tão bem faziam Platão e seus discípulos e que ele não sabia executar, apesar de ter sido autor de 300 volumes de grande valor encerrado no jardim de sua escola de Samos. Por que esta manifestação de maldade? Por despeito e inveja a Platão? &lt;span style="font-weight: bold;"&gt;O que se pode afirmar, sem dar lugar a dúvidas, é que foram necessários cem anos para que a Grécia descobrisse quem era, na verdade, Epicuro, aquele Deus dos jardins. Supondo-se que tenha chegado a se dar conta&lt;/span&gt;.&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight: bold;"&gt;8.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;Portanto, é oportuno repetir afirmativamente que em toda filosofia a "convicção" do filósofo, num preciso momento mostra-se de uma maneira que poderia ser bem expressada através da linguagem de um antigo mistério medieval; "&lt;span style="font-style: italic;"&gt;Adventavit asinus pulcher et fortissimus&lt;/span&gt;".&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight: bold;"&gt;9.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight: bold;"&gt;Como se enganam aqueles que querem viver "de acordo com a natureza"! Nobres estóicos, que falsas palavras! &lt;/span&gt;Com efeito, imaginai um ser moldado pela Natureza, prodigioso à sua imagem, infinitamente indiferente, carente de intenções, e vislumbres de piedade e justiça, fecundo, estéril e incerto, ao mesmo tempo; porém imagina! também o que significa a própria indiferença convertida em poder:  poderíeis  viver de acordo com essa diferença? &lt;span style="font-weight: bold;"&gt;Viver é querer ser diferente da Natureza, formar juízos de valor, preferir, ser injusto, limitado, querer ser diferente! Admitindo que o lema "de acordo com a Natureza" signifique no fundo "de acordo com a vida" seria possível que atuásseis de outra forma? Por que então fazer um principio do que já sois, daquilo que podeis deixar de ser?&lt;/span&gt; Vede, pois, que em verdade, sucede exatamente o contrário: quando pretendeis desentranhar fervorosamente em a Natureza os preceitos de nossas leis, o que buscais, na realidade, é algo muito distinto do que gostaríeis de encontrar. Os atores de impostura, querendo enganar aos demais, promoveis a vingança de vós mesmos! Vosso orgulho sempre demolida pretende impor à Natureza vossa moral e vosso ideal. &lt;span style="font-weight: bold;"&gt;Sim, porque desejais que tudo quanto existe se reduza à vossa própria imagem, fazendo uma prodigiosa e eterna apoteose e uma generalização do estoicismo. Porém, apesar de todo nosso amor pela verdade, vos empenhas em ver a Natureza como ela não é, em vê-la estóica, e finalmente, não podeis vê-la de outro modo&lt;/span&gt;. Não sei que orgulho limitado me inspira esta Insensata esperança, posto que, ainda que estando conscientes de que sois vosso próprio tirano, insistis em vosso erro, acreditando, que a Natureza se prestará à tirania, como se o estoicismo não fosse também parte da natureza. Tudo isso, entretanto, é uma velha e eterna história, &lt;span style="font-weight: bold;"&gt;a filosofia, no fundo da Natureza, e seu contexto visível, é apenas esse instinto tirânico: a vontade de potência em seu aspecto mais intelectual, a vontade de "criar o mundo" e implantar nele a causa primeira&lt;/span&gt;.&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight: bold;"&gt;10.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;A sutileza, e quase poderia ser dito, a malícia, com a qual em toda Europa é atacado o problema do “mundo real” e do "mundo aparente", dá muito o que pensar e escutar; os que tão-somente ouvem a repetida canção da "vontade do verdadeiro" não têm o sentido da audição muito desenvolvido. &lt;span style="font-weight: bold;"&gt;Pode ser que, em certos casos, essa "vontade do verdadeiro" chegue a formar parte do jogo; o que não deixaria de ser uma extravagante toleima, e aventureira, um orgulho metafísico empenhado em manter uma posição perdida e que sempre preferiria uma mancheia de "certeza" a uma carrada de insossas possibilidades&lt;/span&gt;. &lt;span style="font-weight: bold;"&gt;Também pode acontecer que existam fanáticos da consciência, puritanos que preferem morrer sobre uma vã ilusão e não sobre uma incerta realidade. Mas isto não só é nihilismo, mas também sintoma de uma alma que se sente desesperada e fatigada até a morte, por muito valorosa que possam parecer as atitudes de semelhante virtude. Parece, sem dúvida, que nos pensadores mais vigorosos e vivazes, que ainda sentem o desejo de viver, as coisas sucedem de outra forma: esses filósofos não mais concedem crédito à aparência, do que a seu corpo físico, segundo a qual a terra está imóvel, renunciando assim, com fingido bom humor, a seu próprio corpo a seu bem mais seguro (pois há por acaso algo mais seguro do que o próprio corpo?).&lt;/span&gt; Quem tem a certeza de que o propósito seja algo mais do que tratar de reconquistar uma possessão de outrora, mais segura que o corpo, um vestígio da antiga crença na "alma imortal" ou no "Deus de antanho", ou quiçá algumas dessas idéias com as quais se vivia melhor, mais seguro, mais alegre, do que com as "idéias modernas"? Esta atitude de  desconfiança  com respeito às "idéias modernas" consiste em negar-se a acreditar em tudo o que foi construído ontem e hoje. A isto se une, talvez, um ligeiro mal-estar.,um sarcasmo para com esse "&lt;span style="font-style: italic;"&gt;bric-à-brac&lt;/span&gt;" de conceitos heteróclitos que o chamado positivismo oferece hoje em dia aos consumidores; pois &lt;span style="font-weight: bold;"&gt;quem possui um gosto refinado sente repugnância frente a essa mescla de feira e esse montão de retalhos que apresentam os filosofastros do real, para quem nada é novo, tampouco verdadeiro.&lt;/span&gt; Parece-me que, neste ponto, deve-se dar a razão aos céticos inimigos do real, a esses minuciosos analistas do conhecimento: o instinto que os distancia da realidade presente não foi refutado. Que oferecem os escabrosos caminhos que nos conduzem para trás? O essencial neles não é o retrocesso, mas o fato de que desejem caminhar sozinhos. Com pouco mais de vigor, valentia, de sentido artístico, poderiam ir além, e não para trás.&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight: bold;"&gt;11.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight: bold;"&gt;Segundo me parece, todo mundo se esforça hoje para minimizar a influência real que Kant exerceu na filosofia alemã e por dar importância ao problema do valor que ele mesmo se atribuía; Kant estava extremamente orgulhoso de sua tábua de categorias&lt;/span&gt;. Com esta tábua na mão dizia: "Isto é o mais difícil que jamais se empreendeu nas aras da metafísica". Entendamos bem estas palavras:  &lt;span style="font-style: italic;"&gt;que jamais se empreendeu&lt;/span&gt;.  &lt;span style="font-weight: bold;"&gt;Kant orgulhava-se de ter descoberto no homem uma nova faculdade, a de formular juizos sintéticos "a priori". Reconheçamos que se equivocava neste ponto, mas nem por isso o desenvolvimento e o rápido florescimento da filosofia alemã deixam de ser frutos desse orgulho que incitou a todos os jovens pensadores a descobrir algum outro motivo de orgulho ou pelo menos, algumas "novas faculdades"&lt;/span&gt;. Bem, reflitamos um pouco, posto que ainda temos tempo. D&lt;span style="font-weight: bold;"&gt;e que modo são possíveis os juizos sintéticos a  priori?&lt;/span&gt;  Perguntava-se Kant. Em poucas palavras, sua resposta foi esta: &lt;span style="font-weight: bold;"&gt;por meio de uma faculdade&lt;/span&gt;. Infelizmente, não se expressou com tanta concisão mas de um modo prolixo, pomposo, com ostensivo luxo de pensamentos obscuros e de linguagem confusa até fazer incompreensível a jocosa tolice alemã que se absconde no fundo desta resposta. Todos se sentiram embriagados da alegria ante a idéia dessa nova faculdade, e o entusiasmo chegou às culminâncias quando Kant descobriu mais uma faculdade moral do homem. Nesta época os alemães eram, todavia, morais, e ignoravam o "realismo político". Esta foi a lua-de-mel da filosofia alemã. Todos os jovens teólogos do seminário de Tübingen se dedicaram à busca de "faculdades" novas. E o que foi não descobriram, nessa inocente época de juvenil riqueza, na qual a fada maligna do romantismo embargava o espírito dos alemães com suas fanfarronices e canções! &lt;span style="font-weight: bold;"&gt;Não se distinguia ainda entre "descobrir" e "inventar"&lt;/span&gt;. &lt;span style="font-weight: bold;"&gt;A principal descoberta foi a da faculdade "supra-sensível". Schelling denominou-a intuição intelectual, satisfazendo assim aos mais fervorosos desejos de seus queridos alemães, cujos corações apenas aspiram à piedade&lt;/span&gt;. A pior injustiça que se pode cometer contra esse descontrolado e novelesco movimento que era só juventude — ainda que tenha disfarçado com um véu de idéias cinzentas e senis — seria a de torná-lo a sério e aplicar-lhe, por exemplo, as sanções da indignação moral. Finalmente, envelheceram e o sonho desvaneceu-se. Chegou o momento em que abriram os olhos, haviam sonhado e Kant foi o primeiro. "Por meio de uma faculdade", ou pelo menos, havia querido dizer, mas isto é uma resposta, uma explicação? Ou é simplesmente uma repetição da pergunta? Por que faz dormir o ópio? "Por meio de uma faculdade", pela &lt;span style="font-style: italic;"&gt;virtus&lt;/span&gt; dormitiva, disse o médico de Molière: "&lt;span style="font-style: italic;"&gt;Quia est in eo virtus dórmitiva cuyus est natura sensus assoupire&lt;/span&gt;". &lt;span style="font-weight: bold;"&gt;Creio que é chegado o momento de substituir a pergunta de Kant: "Como são possíveis os juízos sintéticos a  priori?"  por esta outra pergunta: "Por que é necessário acreditar nesta classe de juízos?"&lt;/span&gt;. Devemos lembrar que a conservação de seres de nossa espécie necessita desses juízos que devem ser tidos como verdadeiros, o que não impede por suposição, que possam ser  falsos,  ou, para sermos mais claros, mais chãos e radicais: os juízos sintéticos a  priori  não deveriam ser "prováveis". Nós não temos nenhum direito sobre eles, são como tantos outros juízos falsos que pronunciamos. Entretanto, necessitamos considerá-los verdadeiros: isto nada mais é que uma suposição imprescindível para viver. E se todavia deve-se referir à prodigiosa ação que a "filosofia alemã" — espero que todos compreendam o direito às aspas exerceu em toda a Europa, temos de confessar que contribuiu para isso certa virtus dormitiva. Os ociosos de classe alta, os moralistas, os místicos, os artistas, as três quartas partes dos cristãos e os obscurantistas, políticos de qualquer nacionalidade se sentiam ditosos por possuir na filosofia alemã um antídoto contra o sensualismo ainda florescente que transmitia o século anterior a este; em resumo, &lt;span style="font-style: italic;"&gt;sensus assoupire&lt;/span&gt; ...&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight: bold;"&gt;12.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;A teoria atômica da matéria é uma das coisas melhor rebatidas que existem, e quiçá não exista em toda Europa um só sábio que seja tão ignorante a ponto de conferir-lhe ainda certa importância além daquela de uso doméstico (como meio de abreviação das fórmulas). Em primeiro lugar temos de agradecê-lo ao dálmata Boscovich. Para ele, o átomo é um centro de força que explica todas as propriedades da matéria. E Boscovich foi, com o polonês Copérnico, o maior e mais vigoroso adversário da aparência. Com efeito, se Copérnico logrou fazer-nos crer, contra o testemunho de nossos sentidos, que a Terra não está imóvel, Boscovich nos ensinou a renegar o último artigo de fé que ainda subsistia no terreno da crença nos “corpos”, na “matéria”. E antes que Boscovich, já o havia ensinado Berkeley, o que havia de certo neste último resíduo, nesta parcela ínfima da terra que é o átomo. Foi o maior triunfo jamais alcançado sobre os sentidos. Entretanto, é necessário ir mais além e declarar uma guerra sem quartel contra a tão traída clandestina "necessidade atômica" que continua rondando perigosamente por terrenos insuspeitados, como o faz também a "necessidade metafísica", mais famosa ainda. Dever-se-á sacrificar a esse outro atomismo mais funesto ainda que o cristianismo, e por mais tempo: o atomismo psíquico. Tomo a liberdade de designar assim a crença que converte a alma em coisa indestrutível, invisível, eterna, uma mônada, um atomon. É desta crença que se deve livrar a verdadeira ciência, e toda investigação científica que se proclame como tal. Para o mais, fica claro entre nós que não é necessário suprimir "a alma" de um só golpe e renunciar a uma das mais antigas e veneráveis hipóteses da alma. isto é, idéias como a da "alma imortal", a "alma múltipla", a alma edifício coletivo de instintos e paixões", idéias que desde já reclamam direito de cidadania na ciência. O psicólogo novo, para acabar com a superstição que se multiplicou em torna da noção de alma, lançou-se de certo modo a um novo deserto e a uma nova desconfiança. Provavelmente a tarefa dos antigos psicólogos tenha sido mais alegre e tenha tido mais sorte, porém. apesar disso, o psicólogo novo sente-se por isso mesmo impulsionado, condenado a inventar e talvez — quem sabe? — também a descobrir.&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight: bold;"&gt;13&lt;/span&gt;.&lt;br /&gt;Antes de afirmar que o instinto de conservação é o instinto motor do ser orgânico, dever-se-ia refletir. O ser vivo necessita e deseja antes de mais nada e acima de todas as coisas dar liberdade de ação à sua força, ao seu potencial. A própria vida é vontade de potência. O instinto de conservação vem a ser uma conseqüência indireta, e em todo caso, das mais freqüentes. Resumindo, neste ponto como em outros deve-se desconfiar de princípios teológicos inúteis tais como o instinto de conservação e o esforço de preservar o ser que se deve à inconseqüência de Spinoza. Assim o exige o método, que deve ser essencialmente parco de princípios.&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight: bold;"&gt;14.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;Em nossa época talvez existam cinco ou seis cérebros que começam a suspeitar que talvez a física não seja reais que um instrumento para interpretar e regrar o mundo, uma adaptação para nós mesmos,  se nos é permitido dizê-lo, e não uma explicação do universo. Entretanto, na medida em que a física se apóia na crença dos dados proporcionados pelos sentidos, esta vale mais e continuará valendo mais — durante muito tempo — que uma verdadeira explicação. Conta com o&lt;br /&gt;testemunho dos olhos e dos dedos, isto é, a vista e o tato. Numa época de gostos profundamente plebeus oferece uma atração sugestiva, embriagadora, convincente, posto que nosso século adota com extraordinária facilidade as normas do sensualismo eternamente popular. O que há de claro aqui? O que é que parece "claro"? Antes de mais nada o que se pode ver e tocar. Portanto, é preciso levar até esse ponto os problemas. E daí, precisamente, que a oposição à evidência perceptível tenha sido o encanto do pensamento platônico, que era um pensamento aristocrático  próprio de homens dotados talvez de sentidos mais vigorosos e exigentes que os de nossos contemporâneos, mas que sabiam saborear um triunfo superior mantendo-se senhores de si mesmos e lançando sobre a heterogênea variedade dos sentidos, como dizia Platão, uma rede de pálidos conceitos de aparência triste e fria. Este modo platônico de submeter ao mundo, de interpretá-lo tinha em si mesmo um gozo de qualidade muito diferente da que nos oferecem os&lt;br /&gt;,físicos de hoje ou esses operários da filosofia, darwinistas e antifinalistas, com seu princípio do "mínimo de energia" que é o máximo de estupidez. "Ali onde o homem não pode ver nem tocar nada, não há nada que procurar", o que não deixa de ser um imperativo muito distinto daquele de Platão, porém adaptável a uma raça dura e laboriosa de futuros mecânicos e futuros engenheiros que apenas tenham de cuidar de trabalhos superlativamente grosseiros.&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight: bold;"&gt;15.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;Para estudar seriamente a fisiologia é preciso afastar-se da idéia de que os órgãos são fenômenos, tal como os considera a filosofia idealista e que, portanto, não poderiam ser causas. Conseqüentemente dever-se-ia aceitar o sensualismo, pelo menos a titulo da hipótese reveladora, para não dizer de princípio heurístico. Como?! Pois não há quem diga que o mundo exterior é obra de nossos órgãos? Sendo assim, nossos próprios órgãos seriam obra de nossos órgãos. Eis aqui o que eu chamaria uma radical  &lt;span style="font-style: italic;"&gt;reductio ad absurdum&lt;/span&gt;,  admitindo que a noção de  causa sui  seja algo de fundamentalmente absurdo. Pois, não é o mundo exterior que é obra de nossos sentidos.&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight: bold;"&gt;16.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;Ainda há ingênuos acostumados à introspecção que acreditam que existem "certezas imediatas", por exemplo, o "eu penso" ou, como era a crença supersticiosa de Schopenhauer, o “eu quero”; como se nesse caso o conhecimento conseguisse apreender seu objeto pura e simplesmente, enquanto "coisa em si" sem alteração por parte do objeto e do sujeito. Afirmo que a "certeza imediata", bem como o "conhecimento absoluto" ou a "coisa em si" encerram uma c&lt;span style="font-style: italic;"&gt;ontradictio in adjecto&lt;/span&gt;; seria pois, esta a ocasião de livrar-se do engano que encerram as palavras. O Vulgo acredita .que o conhecimento consiste em chegar ao fundo das coisas; por outro lado, o filósofo deve dizer-se: "Se analiso o processo expressado na frase ., eu penso", obtenho um conjunto de afirmações arriscadas, difíceis e talvez impossíveis de serem justificadas; por exemplo, que sou eu quem pensa, que é absolutamente necessário que algo pense, que o pensamento é o resultado da atividade de um ser concebido como causa, que exista um "eu"; enfim, que se estabeleceu de&lt;br /&gt;antemão o que se deve entender por pensar e que eu sei o que significa pensar. Pois se eu não tivesse antecipadamente respondido à questão por minha própria razão, como poderia julgar que não se trata de uma "vontade" ou de um "sentir"? Resumindo o exposto, este "eu penso" implica que  comparo meu estado momentâneo com outros estados observados em mim para estabelecer o que é. posto que é preciso recorrer a um "saber de origem diferente", pois, "eu penso" não tem para mim nenhum valor de "certeza imediata". Em lugar dessa segurança em que o vulgo talvez venha a crer, o filósofo por seu lado não retira mais que um punhado de problemas metafísicos, de verdadeiros casos de consciência intelectuais que podem ser colocados da seguinte forma: De onde retiro minha noção de "pensar"? Por que devo crer na causa e no efeito? Com que direito posso falar de um "eu" e de um "eu" como causa e para cúmulo, causa do pensamento? Aquele que se atrever a responder imediatamente a estas questões metafísicas alegando uma espécie de intuição do conhecimento, como se faz quando se diz:. "eu penso e sei que isto pelo menos é verdade, que é real", com certeza provocará no filósofo de hoje um sorriso e uma dupla interrogação: "Senhor, dirá o filósofo, parece-me incrível que o senhor não se equivoque nunca, mas por que anseia por encontrar a verdade acima de tudo. sem limitação de esforços?"&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight: bold;"&gt;17.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;Quando se fala da superstição dos lógicos não deixo nunca de insistir num pequeno fato que as pessoas que padecem desse mal não confessam senão através de imposição. É o fato de que um pensamento ocorre apenas quando quer e não quando "eu" quero, de modo que é falsear os fatos dizer que o sujeito "eu" é determinante na conjugação do verbo "pensar". "Algo" pensa, porém não é o mesmo que o antigo e ilustre "eu", para dizê-lo em termos suaves, não é mais que uma hipótese, porém não, com certeza, uma certeza imediata. Já é demasiado dizer que algo pensa, pois esse algo contém uma interpretação do próprio processo. Raciocina-se segundo a rotina gramatical: "Pensar é uma ação, toda ação pressupõe a existência de um sujeito e portanto..." Em virtude de um raciocínio semelhante e até igual, o atomismo antigo que unia a "força atuante" à parte de matéria em que se encontra essa força, atua a partir desta: o átomo. Os espíritos mais rigorosos terminaram por desfazer-se deste último “resíduo terrestre" e inclusive pode chegar o dia em que os lógicos prescindam desse pequeno “algo” que ficará como resíduo ao evaporar-se o antigo e venerável "eu".&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight: bold;"&gt;18.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;Não é o menor dos encantos o fato de que uma teoria possa ser rebatida, pelo contrário, parece que a teoria mil vezes rechaçada do "livre arbítrio" deve sua sobrevivência apenas a essa qualidade, posto que sempre vemos surgir alguém disposto a refutá-la ainda.&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight: bold;"&gt;19.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;Os filósofos gostam de falar da vontade como se fosse a melhor coisa conhecida do mundo. Schopenhuer deu a entender inclusive que a vontade é algo que realmente distinguimos, algo perfeitamente reconhecido, sem demasia e sem falta, mas parece-me que Schopenhauer, neste como em outros casos seguiu a mesma rota que todos os filósofos: adotou e exagerou ao máximo um . preconceito popular. A vontade se me apresenta antes de mais nada, como algo complexo, algo que não possui outra unidade que seu nome e nesta unicidade de nome é precisamente onde encontra seu fundamento o preconceito que enganou a prudência sempre muito deficiente dos filósofos. Sejamos, pois, mais discretos, menos filósofos e admitamos que em cada vontade existe, antes de mais nada uma infinidade de sentimentos: o do estado do qual se quer sair, o do estado ao qual se tende, a sensação destas duas direções, ou seja "daqui" — "até lá"; enfim, uma sensação muscular que, sem chegar a pôr em movimento braços e pernas, toma parte dele assim que nos dispomos a "querer". Do mesmo modo que o sentir, um sentir multíplice, é evidente que um dos componentes da vontade, contém também um "pensar", em todo ato voluntário há um pensamento diretor e portanto, deve-se evitar a crença que se pode afastar esse pensamento do “querer” para obter um precipitado que continuaria sendo vontade. Em terceiro lugar a vontade não é apenas um conjunto de sensações e pensamentos, mas também e antes de tudo um estado afetivo, a emoção derivada do mando, do poderio. O que se chama "livre arbítrio" é essencialmente o sentimento de superioridade que se sente ante um subalterno. "Eu sou livre, ele deve obedecer", eis o que há no fundo de toda vontade, a certeza íntima que constitui o estado de ânimo de quem manda. Querer significa ordenar a algo em si mesmo que obedece ou, pelo menos, é considerado como obediente. Mas observemos agora a própria essência da vontade, essa coisa tão complexa para a qual o vulgo usa apenas uma palavra. Se fôssemos a um só tempo, aquele que manda e o que obedece, sentiríamos ao obedecer a impressão de que estávamos sendo obrigados, pressionados e simultaneamente impulsionados a resistir ao movimento, impressões que sequem imediatamente ao ato da volição; porém na medida em que, por outro lado, temos o costume de não fazer caso dessa ambivalência, de enganar-nos a seu respeito graças ao conceito sintético do eu", toda uma cadeia de conclusões errôneas e conseqüentemente, de falsas apreciações da vontade também se ligam ao querer. Como quem acredita de boa fé que basta querer para atuar, assim, na maioria dos casos, alguém se contentou em querer e como também se deve esperar o efeito da ordem, isto é, a obediência, o cumprimento do ato prescrito, a  aparência se  traduz pelo sentimento de que o ato deveria se produzir  necessariamente.  Em outras palavras, aquele que quer, acredita que querer e fazer se resumem numa única coisa. Para ele o êxito e a execução do querer são efeitos do próprio querer e esta crença torna mais forte o sentimento de poder, que ele sente, e que o êxito traz como companheiro. O "livre arbítrio": esta é a designação desse complexo estado de prazer do homem que quer, que manda, e que, ao mesmo tempo, se confunde com o que executa, gozando assim o prazer de superar obstáculos com a idéia de que é sua própria vontade que triunfa sobre as resistências. Assim pois, o ato voluntário soma, deste modo, ao prazer de dar uma ordem, o prazer do instrumento que o executa com êxito; à vontade são acrescentadas vontades "subalternas", almas subalternas e dóceis, pois nosso corpo não é mais que a habitação de muitas almas.  L'effet c'est moi:  acontece aqui o mesmo que em toda coletividade feliz e bem organizada; a classe dirigente se apropria dos êxitos da coletividade. Em todo querer se trata simplesmente de mandar e de obedecer dentro de uma estrutura coletiva complexa, constituída, como já disse, por "muitas almas". Portanto o filósofo deveria considerar o querer a partir do ângulo da moral, a moral como conceito de uma ciência dominante. Donde brota o fenômeno da vida.&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight: bold;"&gt;20.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;Dir-se-ia que os diferentes conceitos filosóficos não são nada arbitrários, que não se desenvolvem separadamente, mas que mantém certo parentesco. Precisamente por isso, ao fazer sua aparição na história do pensamento, não deixam de pertencer a um mesmo sistema, exatamente o mesmo que os diversos representantes da fauna do continente. É isso que se percebe na segurança com que os mais diferentes filósofos vêm a ocupar por sua vez seu posto dentro de um determinado esquema prévio das  possíveis  filosofias. Uma magia invisível os obriga a percorrer incessantemente a mesmo circulo, por mais independentes que se creiam, um dos outros, em sua&lt;br /&gt;vontade de elaborar sistemas, algo os impulsiona a sucederem-se numa determinada ordem, que é, entretanto, a ordem sistemática inata dos conceitos de seu parentesco essencial. Na verdade, seu pensamento consiste menos em investigar que em reconhecer, recordar, voltar atrás, reintegrar uma zona muito antiga e distante da alma donde saíram esses conceitos que não procuram descobrir. A atividade filosófica nesse aspecto, é uma espécie de atavismo do mais elevado grau. A estranha similaridade que guardam entre si todas as filosofias indianas, gregas e alemãs, tem uma explicação simples. Efetivamente, quando há parentesco lingüística é inevitável que em virtude de uma filosofia gramatical, exercendo no inconsciente as mesmas funções gramaticais em domínio e direção, tudo se encontra preparado para um desenvolvimento análogo aos sistemas filosóficos, enquanto que o caminho parece fechado para quaisquer outras possibilidades de interpretação do universo. As filosofias do grupo lingüística uro-altaico (nas quais a noção de sujeito está pouco desenvolvida) provavelmente observaram e interpretaram o mundo com outros olhos e seguiram por caminhos diferentes dos indo-europeus ou muçulmanos. O fascínio que exercem certas funções gramaticais é, no fundo, o exercido por determinadas valorações fisiológicas e certas particularidades raciais. Isto para refutar as afirmações superficiais de Locke a respeito da origem das idéias.&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight: bold;"&gt;21.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;A &lt;span style="font-style: italic;"&gt;causa sui&lt;/span&gt; é  a mais bela contradição já cogitada, uma espécie de violação e golpe mortal à lógica. Porém o orgulho ilimitado do homem conduziu-o a um emaranhamento cada vez maior no intrincado absurdo, o desejo do "livre arbítrio" entendido no sentido superlativo e metafísico que domina ainda (por desgraça, nos cérebros semi-cultivados) que é a necessidade de suportar a completa e absoluta responsabilidade de seus atos e não atribuí-la a Deus, ao mundo, à hereditariedade, à sorte, à sociedade, esta causa sui não é mais que a necessidade de ser alguém, e com esta audácia intrépida que supera à do barão de Münchhausen tenta tirar a si mesmo do pântano do nada puxando seus próprios cabelos e entrar na luz da existência. Se alguém chegasse a vislumbrar a néscia rusticidade do famoso conceito do "livre arbítrio" até chegar a afastá-lo do seu espírito, eu lhe rogaria que desse, mais um passo e afastasse de seu cérebro o contrário desse pseudo-conceito, isto é, o "determinismo", que conduz ao mesmo abuso das noções de causa e efeito. Não é preciso cometer o erro de tornar condicionados causa e efeito, como fazem os naturalistas (e todos que sequem seu método de pensar) segundo as cretinices mecanicistas em voga, que querem que toda causa impulsione e pressione até produzir um efeito. É conveniente entretanto, não se servir da “causa” e do “efeito” senão em termos de puros conceitos, ou seja, como ficções convencionais que servem para designar, para pôr-se de acordo, porém de modo algum para explicar alguma coisa. No "em si" não há nenhum vestígio de "nexo causal", de "necessidade", de "determinismo psicológico", o "efeito" não é conseqüência de nenhuma "causa" , nenhuma "lei" impera ali. Ninguém mais que nós foi o inventor de tais ficções como: a causa, a sucessão, a reciprocidade, a relatividade, a necessidade, o número, a lei, a liberdade, a razão, o fim, e quando introduzimos falsamente nas "coisas" este mundo de símbolos inventados, quando o incorporamos às coisas como se lhes, pertencesse "em si" mais uma vez, como sempre fizemos, criamos uma mitologia. Na verdade estamos frente  à vontade forte ou fraca. Quando um pensador trata de descobrir de uma só vez em todo "encadeamento causal" algo que se pareça a uma frustração, a uma necessidade, a uma concatenação obrigada, a uma pressão, a um servilismo, é quase sempre sintoma de que há algo que falha no ente em questão e ao sentir deste modo é inquestionável que a personalidade ali se desvele. Deste modo geral. Se minhas observações são exatas o problema do determinismo é considerado a partir de dois aspectos absolutamente diferentes, porém sempre de modo absolutamente subjetivo, uns, não querendo dividir a "responsabilidade" de sua crença em si mesmos, seu direito pessoal, produto de Seu próprio mérito (caso das castas vaidosas); outros, contrariamente, recusando toda responsabilidade, impulsionados pelo desprezo de si mesmos e ansiosos de livrar-se sem considerar sobre quem ou onde caia a pesada carga de seu eu. Quando estes escrevem livros tendem a empreender a defesa dos malfeitores, seu disfarce mais sutil é simular uma espécie de socialismo da piedade e, natural e efetivamente, o fatalismo dos fracos de vontade é maravilhosamente embelezado quando consegue apresentar-se como "religion de la souffrance humaine". Este é, sem dúvida, seu modo peculiar de demonstrar seu "bon goút".&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight: bold;"&gt;22.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;Perdoem a esse velho filólogo que sou, se não renuncia a abdicar do maligno prazer que representa pôr o dedo na chaga das explicações errôneas, de vossas fraquezas filológicas. Porque, em verdade, esse mecanismo das "leis da natureza", de que vós, físicos, falais com tanto orgulho, não é um fato nem um texto, mas uma composição ingenuamente humana dos fatos, uma deturpação do sentido, uma adulação servil à habilidade dos instintos democráticos da alma moderna. "Em todas as partes, igualdade diante da lei, a este respeito, a natureza, não foi melhor tratada que nós". Sedutora segunda intenção que encobre mais uma vez o ódio da plebe contra toda marca de privilégio e de tirania, bem como uma segunda forma mais sutil de ateísmo. "Ni Dieu, ni maitre". Vós também desejais que assim seja e por isso gritais: "Vivam as leis da natureza!" Porém, repito, isto é interpretação e não texto. Poderia surgir alguém com intenções opostas e com muitos outros artifícios de interpretação que decifrasse, nesta própria natureza e partindo dos mesmos fenômenos, o mistério do triunfo brutal e desapiedado de vontades tirânicas, quando este novo intérprete nos revelaria a "vontade de potência" em sua realidade e em sua força absoluta até que todas as palavras seriam inutilizáveis e inclusive a palavra “tirania” pareceria um eufemismo. Este filósofo acabaria, contudo, por afirmar, relativamente a este mundo, o mesmo que vós, isto é, que tem um curso "necessário", "previsível" não pelo fato de estar submetido a leis, mas pela absoluta inexistência de leis e porque a força a cada instante, vai até a última de suas conseqüências. Mas como isso não é mais que uma interpretação, já sei que objetareis: pois bem, tanto melhor!&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight: bold;"&gt;23.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;Toda a psicologia manteve-se vinculada, até hoje, a preconceitos e apreensões de ordem moral; não ousou adentrar em suas profundezas. Concebê-la, como eu o faço, sob as espécies de uma morfologia e de uma genética da  vontade de potência,  é uma idéia que ninguém abordou nem mesmo superficialmente, suponho que, partindo que se escreveu seja possível adivinhar o que permaneceu em silêncio. A poderosa força dos preconceitos morais penetrou profundamente no&lt;br /&gt;círculo da espiritualidade pura, aparentemente a mais fria e desprovida de idéias preconcebidas e, como é natural, influiu nela — de modo prejudicial — uma ação paralisadora, deslumbrante e deformante. Uma psicofisiologia autêntica se choca contra resistências inconscientes no coração do investigador. A simples teoria da interdependência dos instintos "bons" e maus" parece um refinamento de imoralidade e desperta o perigo e o desgosto inclusive numa consciência valente e vigorosa. E a desgosto é maior ante a doutrina que faz derivar os bons instintos dos maus, Admitindo, todavia, que existe alguém que chega a considerar como paixões essenciais da vida ao ódio, inveja, cobiça e comando, como principias fundamentais da vida, como algo que lia economia de vida deve existir fundamental e essencialmente e que por conseguinte deve ser ainda intensificado se se deseja intensificar a vida, este homem sofrerá algo como um enjôo devido à orientação de seu próprio juízo. Contudo esta hipótese não é mais penosa e a mais estranha, neste imenso domínio quase virgem do conhecimento, do qual todos têm mil e uma boas razões para se manterem à distância..., se podem. Nosso barco sofre a tormenta! Serremos os dentes! Vigilantes! Firmes no leme! Naveguemos em linha reta acima da moral! Porém, apesar de tudo decidisses conduzir vossa nau a essas praias, então só vos resta o remédio de manter esse valor, ficar alerta e manter firme o timão. Que importa nosso destino! Nunca até agora encontraram os navegantes, intrépidos e aventureiros — um mar de conhecimentos mais profundos e o psicólogo que faz tais "sacrifícios" (este não é  o sacrilizio dell'intelletto) reclamará como próprio o direito de que a psicologia seja de novo instaurada como rainha das ciências, aquela à qual as demais ciências têm a "obrigação" de servir e preparar, pois a psicologia se converteu de novo no caminho que condiz aos problemas fundamentais.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/32811404-3689417682509851249?l=nietzschebrasil.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://nietzschebrasil.blogspot.com/feeds/3689417682509851249/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=32811404&amp;postID=3689417682509851249&amp;isPopup=true' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/32811404/posts/default/3689417682509851249'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/32811404/posts/default/3689417682509851249'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://nietzschebrasil.blogspot.com/2008/11/os-preconceitos-dos-filsofos.html' title='OS PRECONCEITOS DOS FILÓSOFOS'/><author><name>Alexandre Anello</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06749747605638893158</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='31' height='32' src='http://bp2.blogger.com/_L5qoaf3Xi3U/SE3s_fYeVLI/AAAAAAAAABo/CvlzcwYBP3c/S220/Baselworld2005.JPG'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://4.bp.blogspot.com/_L5qoaf3Xi3U/STDFbYCEwcI/AAAAAAAAACg/5U8Ryp4FQ4c/s72-c/Nietzsche187a.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-32811404.post-115906653414307129</id><published>2006-09-23T22:46:00.000-04:00</published><updated>2006-09-23T22:55:34.190-04:00</updated><title type='text'>O PROBLEMA DE SÓCRATES</title><content type='html'>&lt;div align="center"&gt;&lt;a href="http://photos1.blogger.com/blogger/2109/3592/1600/1868a.jpg"&gt;&lt;img style="FLOAT: left; MARGIN: 0px 10px 10px 0px; CURSOR: hand" alt="" src="http://photos1.blogger.com/blogger/2109/3592/320/1868a.jpg" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family:arial;"&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="font-size:180%;"&gt;O PROBLEMA DE SÓCRATES&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt; &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="center"&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="right"&gt;&lt;span style="font-family:verdana;"&gt;&lt;strong&gt;Fonte: &lt;em&gt;Crepúsculo dos Ídolos.&lt;/em&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="right"&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="right"&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="center"&gt;&lt;span style="font-family:verdana;"&gt;&lt;strong&gt;1. &lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;span style="font-family:verdana;"&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Em todos os tempos os grandes sábios sempre fizeram o mesmo juízo sobre a vida: ela não vale nada... Sempre e por toda parte se escutou o mesmo tom saindo de suas bocas.  Um tom cheio de dúvidas, cheio de melancolia, cheio de cansaço da vida, um tom plenamente contrafeito frente a ela.  O próprio Sócrates disse ao morrer: "viver significa estar há muito doente - eu devo um galo a Asclépio curador". O próprio Sócrates estava enfastiado da vida. O que isso demonstra? Para onde isso aponta? Outrora teria-se dito (ó!  Disse-se e forte o suficiente; e avante nossos Pessimistas!): "Em todo caso é preciso que haja algo verdadeiro aqui! O consensus sapientium prova a verdade." Ainda falaremos hoje desta forma? Nós temos o direito a um tal discurso?  "Em todo caso é preciso que algo esteja doente aqui" - eis a nossa resposta. Em primeiro lugar temos de observar mais de perto esses mais sábios de todos os tempos! Todos eles talvez não estivessem tão firmes sobre as pernas?  Talvez estivessem atrasados?  Cambaleantes? Decadentes? Talvez a sabedoria apresente-se sobre a terra como um corvo, ao qual um pequeno odor de carniça entusiasma?... &lt;/div&gt;&lt;div align="center"&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;2.&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Esta irreverência de asseverar que os grandes sábios são tipos decadentes abriu-se para mim mesmo exatamente em uma circunstância na qual mais intensamente o preconceito erudito e não-erudito se lhe contrapunha. Reconheci Sócrates e Platão como sintomas de declínio, como instrumentos da decomposição grega, como falsos gregos, como antigregos ("Nascimento da Tragédia" 1872).  Aquele consensus sapientium - isto fui compreendendo cada vez melhor - não prova sequer minimamente que eles tinham razão quanto ao que concordavam.  O consenso demonstra muito mais que eles mesmos, esses mais sábios, possuíam entre si algum acordo fisiológico para se colocar frente à vida da mesma maneira negativa - para precisar se colocar frente a ela desta forma. Juízos, juízos de valor sobre a vida, a favor ou contra, nunca podem ser em última instância verdadeiros: eles só possuem o valor como sintoma, eles só podem vir a ser considerados enquanto sintomas.  Em si, tais juízos são imbecilidades.É preciso estender então completamente os dedos e tentar alcançar a apreensão dessa finesse admirável, que consiste no fato de o valor da vida não poder ser avaliado. Não por um vivente, pois ele é parte, mesmo objeto de litígio, e não um juiz; não por um morto, por uma outra razão. -Da parte de um filósofo, ver um problema no valor da vida permanece por conseguinte uma objeção contra ele, um ponto de interrogação quanto à sua sabedoria, uma falta de sabedoria.  Como?  E todos esses grandes sábios? - Eles não seriam senão decadentes, eles não teriam sido sequer uma vez sábios?  Mas eu retorno ao problema de Sócrates. &lt;/div&gt;&lt;div align="center"&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;3. &lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Segundo sua origem, Sócrates pertence à camada mais baixa do povo.  Sócrates era plebe. Sabe-se, ainda se pode até mesmo ver, quão feio ele era.  Mas a feiúra, em si uma objeção, é entre os gregos quase uma refutação.  Sócrates era afinal de contas um grego?  Muito freqüentemente, a feiúra é a expressão de um desenvolvimento cruzado, emperrado pelo cruzamento.  Em outros casos, ela aparece como desenvolvimento decadente. Os antropólogos dentre os criminalistas dizem-nos que o criminoso típico é feio: monstrum infronte, monstrum in animo.  Mas o criminoso é um décadent. Sócrates era um típico criminoso?  Ao menos não o contradiz aquele famoso juízo-fisionômico que soava tão escandaloso aos amigos de Sócrates.  Um estrangeiro, que entendia de rostos, disse certa vez na cara de Sócrates, ao passar por Atenas, que ele era um monstro e escondia todos os vícios e desejos ruins em si. E Sócrates respondeu simplesmente: "Vós me conheceis, meu Senhor!" &lt;/div&gt;&lt;div align="center"&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;4. &lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Em Sócrates, a desertificação e a anarquia estabelecidas no interior dos instintos não são os únicos indícios de décadence: a superfetação do lógico e aquela maldade de raquítico, que o distinguem, também apontam para ela.  Não nos esqueçamos mesmo daquelas alucinações auditivas que, sob o nome de o "Daimon de Sócrates", receberam uma interpretação religiosa. Tudo nele é exagerado, bufão, caricatural. Tudo é ao mesmo tempo oculto, cheio de segundas intenções, subterrâneo. - Procuro compreender de que idiossincrasia provém essa equiparação socrática entre Razão = Virtude = Felicidade: essa equiparação que é, de todas as existentes, a mais bizarra, e que possui contra si, em particular, todos os instintos dos helenos mais antigos. &lt;/div&gt;&lt;div align="center"&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;5. &lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Com Sócrates, o paladar grego transforma-se em favor da dialética: o que acontece aí propriamente? Acima de tudo é um gosto nobre que cai por terra.  A plebe ascende com a dialética.  Antes de Sócrates, recusavam-se as maneiras dialéticas na boa sociedade: elas valiam como más maneiras, elas eram comprometedoras.  Advertia-se a juventude contra elas.  Também se desconfiava de todo aquele que apresentava suas razões de tal modo.  As coisas honestas, tal como as pessoas honestas, não servem suas razões assim com as mãos. É indecoroso mostrar os cinco dedos.  O que precisa ser inicialmente provado tem pouco valor.  Onde quer que a autoridade ainda pertença aos bons costumes, onde quer que não se "fundamente", mas sim ordene, o dialético aparece como uma espécie de palhaço: ri-se dele, mas não se o leva a sério. - Sócrates foi o palhaço que se fez levar a sério: o que aconteceu aí propriamente? &lt;/div&gt;&lt;div align="center"&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;6. &lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Só se escolhe a dialética, quando não se tem mais nenhuma outra saída.  Sabe-se que se suscita desconfiança com ela, que ela é pouco convincente.  Nada é mais facilmente dissipável do que um efeito dialético: a experiência de toda e qualquer reunião na qual se conversa, o prova.  Ela só serve como saída drástica nas mãos daqueles que não possuem nenhuma outra arma. É preciso que se tenha de estabelecer à força o seu direito: antes disto não se faz uso algum dela.  Por isso, os judeus eram dialéticos; Reinecke Fucks era dialético. Como?  Sócrates também o era? &lt;/div&gt;&lt;div align="center"&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;7. &lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;-A ironia de Sócrates é uma expressão de revolta?  De ressentimento da plebe?  Ele goza enquanto oprimido de sua própria ferocidade nas estocadas do silogismo?  Ele vinga-se dos nobres que fascina? &amp;shy;À medida que se é um dialético, tem-se um instrumento impiedoso nas mãos.  Com ele podemos cunhar tiranos e ridicularizar aqueles que vencemos. O dialético lega ao seu adversário a necessidade de demonstrar que não é um idiota: ele o deixa furioso, mas ao mesmo tempo desamparado.  O dialético despotencializa o intelecto de seu adversário. Como?  A dialética é apenas uma forma de vingança em Sócrates?&lt;/div&gt;&lt;div align="center"&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;8. &lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Eu dei a entender o que fez com que Sócrates pudesse se tornar repulsivo: permanece tanto mais a ser esclarecido o fato de ele ter podido produzir fascínio.  Por um lado, Sócrates foi o pioneiro na descoberta de um novo tipo de Agon: para o círculo nobre de Atenas, ele foi o seu primeiro mestre de armas.  Ele fascinou, à medida que tocou no impulso agonístico dos helenos e que trouxe uma variante para o cerne do embate entre os homens jovens e os rapazinhos.  Sócrates também foi um grande erótico. &lt;/div&gt;&lt;div align="center"&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;9. &lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Mas Sócrates desvendou ainda mais.  Ele olhou por detrás de seus atenienses nobres; ele compreendeu que seu caso, a idiossincrasia de seu caso, já não era nenhuma exceção.  O mesmo tipo de degenerescência já se preparava em silêncio por toda parte.  A velha Atenas caminhava para o fim. - E Sócrates entendeu que todo o mundo tinha necessidade dele: de sua mediação, de sua cura, de seu artifício pessoal de autoconservação... Por toda parte os instintos estavam em anarquia; por toda parte estava-se cinco passos além do excesso; o "monstrum in animo" era o perigo universal. "Os impulsos querem fazer-se tiranos; precisa-se descobrir um antitirano, que seja mais forte"... Quando aquele fisionomista revelou a Sócrates quem ele era, uma caverna para todos os piores desejos, o grande irônico ainda deixou escapar uma palavra, que deu a chave para compreendê-lo.  "Isto é verdade, disse ele, mas me tornei senhor sobre todos estes desejos." Como Sócrates se assenhorou de si mesmo? -No fundo o seu caso foi apenas o caso extremo; apenas o caso mais distintivo disto que outrora começou a se tornar a indigência universal: o fato de ninguém mais se assenhorar de si, de os instintos se arremeterem uns contra os outros. Ele fascinou como este caso extremo - sua feiúra apavorante o comunicava a todos os olhares: ele fascinou, como segue de per si, ainda mais intensamente enquanto resposta, enquanto solução, enquanto aparência de cura para este caso. &amp;shy;&lt;/div&gt;&lt;div align="center"&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;10.&lt;/strong&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Se se tem necessidade de fazer da razão um tirano, como Sócrates o fez, então o risco de que outra coisa faça-se tirano não deve ser pequeno. A racionalidade aparece outrora enquanto Salvadora; nem Sócrates, nem seus "doentes" estavam livres para serem racionais.  Ser racional foi o seu último remédio.  O fanatismo, com o qual toda a reflexão grega se lança para a racionalidade, trai uma situação desesperadora. Estava-se em risco, só se tinha uma escolha: ou perecer, ou ser absurdamente racional... O moralismo dos filósofos gregos desde Platão está condicionado patologicamente; do mesmo modo que sua avaliação da dialética. A equação Razão = Virtude = Felicidade diz meramente o seguinte: é preciso imitar Sócrates e estabelecer permanentemente uma luz diurna contra os apetites obscuros -a luz diurna da razão. É preciso ser prudente, claro, luminoso a qualquer preço: toda e qualquer concessão aos instintos, ao inconsciente conduz para baixo... &lt;/div&gt;&lt;div align="center"&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;11. &lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Dei a entender o que fez com que Sócrates exercesse fascínio: ele parecia ser um médico, um salvador. Faz-se ainda necessário indicar o erro que repousava em sua crença na “racionalidade a qualquer preço”? - Imaginar a possibilidade de escapar da décadence através do estabelecimento de uma guerra contra ela é já um modo de iludir a si mesmo criado pelos filósofos e moralistas.  O escape está além de suas forças: o que eles escolhem como meio, como salvação, não é senão uma nova expressão da décadence. Eles transformam sua expressão, mas não a eliminam propriamente. Sócrates foi um mal-entendido.  Toda moral fundada no melhoramento, também a moral cristã, foi um mal-entendido...&lt;br /&gt;A luz diurna mais cintilante, a racionalidade a qualquer preço, a vida luminosa, fria, precavida, consciente, sem instinto, em contraposição aos instintos não se mostrou efetivamente senão como uma doença, uma outra doença. - Ela não concretizou de forma nenhuma um retorno à "virtude", à "saúde", à felicidade... Os instintos precisam ser combatidos esta é a fórmula da décadence. Enquanto a vida está em ascensão, a felicidade é igual aos instintos. &lt;/div&gt;&lt;div align="center"&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;12. &lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Ele mesmo compreendeu isso, este que foi o mais prudente de todos os auto-ludibriadores?  Ele soube dizer isto por fim a si mesmo em meio à sabedoria de sua coragem diante da morte?... Sócrates queria morrer.  Não foi Atenas, mas ele quem deu para si o cálice com o veneno.  Ele impeliu Atenas para o cálice com o veneno... "Sócrates não é nenhum médico, falou ele silenciosamente para si mesmo: apenas a morte é aqui a médica... O próprio Sócrates só estava há muito doente..." &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="right"&gt; &lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/32811404-115906653414307129?l=nietzschebrasil.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://nietzschebrasil.blogspot.com/feeds/115906653414307129/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=32811404&amp;postID=115906653414307129&amp;isPopup=true' title='4 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/32811404/posts/default/115906653414307129'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/32811404/posts/default/115906653414307129'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://nietzschebrasil.blogspot.com/2006/09/o-problema-de-scrates.html' title='O PROBLEMA DE SÓCRATES'/><author><name>Alexandre Anello</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06749747605638893158</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='31' height='32' src='http://bp2.blogger.com/_L5qoaf3Xi3U/SE3s_fYeVLI/AAAAAAAAABo/CvlzcwYBP3c/S220/Baselworld2005.JPG'/></author><thr:total>4</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-32811404.post-115845842623710995</id><published>2006-09-16T21:53:00.000-04:00</published><updated>2006-09-16T22:00:26.256-04:00</updated><title type='text'>A MORAL COMO ANTINATUREZA</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;a href="http://photos1.blogger.com/blogger/2109/3592/1600/paul-klee_angelus-novus.0.png"&gt;&lt;img style="FLOAT: left; MARGIN: 0px 10px 10px 0px; CURSOR: hand" alt="" src="http://photos1.blogger.com/blogger/2109/3592/320/paul-klee_angelus-novus.png" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="font-family:arial;"&gt;Obra de Paul Klee, o Angelus Novus foi uma ferrenha crítica à Modernidade e aos frutos trazidos pelos adoradores da Razão à Humanidade.&lt;br /&gt;Segundo o autor, o anjo está estarrecido, pois, ao olhar para trás, chocou-se com toda a obra humana construída pelos "adoradores da Razão".&lt;br /&gt;Iniciava assim o Pós-Modernismo.&lt;br /&gt;Muito pertinente para o blog de Nietzsche, que também criticou os adoradores da Razão, inaugurando um novo ciclo de pensamento humano.&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="font-family:Arial;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="font-family:verdana;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="font-family:verdana;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="font-family:Verdana;"&gt;.&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="center"&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="font-family:verdana;"&gt;A MORAL COMO ANTINATUREZA&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="center"&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="font-family:Verdana;"&gt;CREPÚSCULO DOS ÍDOLOS&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="center"&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="font-family:verdana;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="center"&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="font-family:verdana;"&gt;I&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family:verdana;"&gt;Todas paixões têm uma fase em que são meramente desastrosas, em que aviltam sua vítima com o peso da estupidez – e uma fase posterior, muito posterior, em que se casam com o espírito, se “espiritualizam”. Antigamente, em vista da estupidez na paixão, declarava-se guerra à própria paixão, conspirava-se pela sua destruição; todos os velhos monstros da moral concordavam quanto a isto: il faut tuer les passions(1). A fórmula mais famosa para isso encontra-se no Novo Testamento, naquele Sermão da Montanha, onde, diga-se de passagem, as coisas não foram de modo algum olhadas do alto. Nele é dito, por exemplo, particularmente em relação à sexualidade: “Se teu olho te escandaliza, arranca-o fora”. Felizmente nenhum cristão age de acordo com esse preceito. Destruir as paixões e os desejos, simplesmente como uma medida preventiva contra a estupidez e as conseqüências desagradáveis dessa estupidez – hoje isso se apresenta a nós apenas como outra forma aguda de estupidez. Não admiramos mais os dentistas que arrancam dentes para que não doam mais. Para ser justo, deve-se admitir, entretanto, que sobre o solo no qual o cristianismo se desenvolveu, o conceito de “espiritualização da paixão” nunca poderia formar-se. Afinal, a Igreja primitiva, como todos sabem, lutou contra os “inteligentes” em favor dos “pobres de espírito”. Como se poderia esperar dela uma guerra inteligente contra a paixão? A Igreja combate a paixão através do aniquilamento em todos os sentidos: sua prática, sua “cura” é a castração. Ela nunca pergunta: “como se pode espiritualizar, embelezar, divinizar um desejo?” Em todos os tempos colocou a ênfase da disciplina na extirpação (da sensualidade, do orgulho, do desejo de dominar, da avareza, da vingança). Mas um ataque às raízes da paixão significa um ataque às raízes da vida: a prática da Igreja é hostil à vida.&lt;br /&gt;1 – É necessário matar as paixões. (N. do T.)&lt;br /&gt; &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="center"&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family:verdana;"&gt;&lt;strong&gt;II&lt;/strong&gt; &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family:verdana;"&gt;Os mesmos meios na luta contra um desejo – castração, extirpação – são instintivamente escolhidos por aqueles que possuem uma vontade fraca demais, degenerada demais, para poderem impor a moderação a si mesmos; por aqueles que necessitam de La Trappe, para falar figuradamente, ou (sem figuras de linguagem) alguma espécie de declaração definitiva de hostilidade, um abismo entre eles e a paixão. Meios radicais são indispensáveis apenas para os degenerados; a fraqueza da vontade – ou, falando de modo mais preciso, a incapacidade de não responder a um estímulo – é em si apenas outra forma de degeneração. A hostilidade radical, a hostilidade mortal contra a sensualidade é sempre um sintoma merecedor de reflexão: ela nos permite fazer suposições concernentes ao estado geral de quem é excessivo desta maneira.&lt;br /&gt;Essa hostilidade, esse ódio, a propósito, alcança seu clímax apenas quando esses tipos carecem mesmo da firmeza suficiente para a cura radical, para a renúncia a seu “Diabo”. Deveria-se examinar toda a história dos sacerdotes e dos filósofos, incluindo a dos artistas: as coisas mais venenosas aos sentidos foram ditas não pelos impotentes, nem pelos ascetas, mas pelos ascetas impossíveis, por aqueles que realmente tinham uma necessidade enorme de ser ascetas.&lt;br /&gt; &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="center"&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="font-family:verdana;"&gt;III&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="center"&gt;&lt;span style="font-family:verdana;"&gt;&lt;strong&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:verdana;"&gt;A espiritualização da sensualidade é chamada amor: representa um grande triunfo sobre o cristianismo. Outro triunfo é a nossa espiritualização da hostilidade. Ela consiste num profundo reconhecimento do valor de se ter inimigos: em suma, significa agir e pensar de modo oposto ao que outrora era a regra. A Igreja sempre desejou a destruição de seus inimigos; nós, imoralistas e anticristãos, encontramos nossa vantagem nisto: que a Igreja existe. No âmbito da política a hostilidade também se tornou mais espiritualizada – muito mais sensível, muito mais pensativa, muito mais ponderada. Quase todo partido compreende que é de interesse à sua própria autopreservação que seus opositores não percam toda a força; o mesmo vale para políticos poderosos. Uma nova criação em particular – um novo Reich, por exemplo – necessita mais de inimigos que de amigos: somente na oposição ele sente-se necessário, somente na oposição ele torna-se necessário. Nossa atitude perante o “inimigo interior” não é de modo algum diferente: aqui também espiritualizamos a hostilidade; também aqui reconhecemos seu valor. O preço da fecundidade é ser rico em oposições internas; permanece-se jovem enquanto a alma não relaxa e anseia pela paz. Nada nos parece mais estranho que aquele desejo dos tempos antigos, o desejo cristão: a “paz da alma”; nada nos causa menos inveja que a vaca moral e a felicidade gorda da boa consciência. Renuncia-se à vida grandiosa quando se renuncia à guerra.&lt;br /&gt;Em muitos casos, certamente, a “paz da alma” é apenas um mal-entendido – algo diverso, para o qual falta um nome mais honesto. Sem mais rodeios ou preconceitos, vejamos alguns exemplos. A “paz da alma” pode ser, para alguém, a suave irradiação de uma rica animalidade no interior da esfera moral (ou religiosa). Ou o começo do cansaço, a primeira sombra da noite, qualquer espécie de noite. Ou o sinal de que o ar está úmido, de que os ventos do sul se aproximam. Ou uma inconsciente gratidão por uma boa digestão (por vezes chamada “amor aos homens”). Ou a obtenção da calma por um convalescente que sente um novo sabor em todas as coisas, e aguarda. Ou o estado que se segue de uma completa satisfação de nossa paixão dominante, o bem-estar de uma rara repleção. Ou a fraqueza senil de nossa vontade, de nossos desejos, de nossos vícios. Ou a preguiça, persuadida pela vaidade a exibir uma aparência moral. Ou o aparecimento da certeza, mesmo da certeza terrível, após uma longa tensão e sofrimento causados pela incerteza. Ou a expressão da maturidade e maestria em meio ao agir, criar, trabalhar e desejar – respirar tranqüilo, a “liberdade da vontade” alcançada. Crepúsculo dos Ídolos – quem sabe? Talvez também apenas um tipo de “paz da alma”.&lt;br /&gt; &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="center"&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="font-family:verdana;"&gt;IV&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="center"&gt;&lt;span style="font-family:verdana;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;strong&gt;&lt;br /&gt; &lt;/div&gt;&lt;/strong&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:verdana;"&gt;– Reduzo um princípio a uma fórmula. Todo naturalismo na moral – isto é, toda moral saudável – é dominado por um instinto vital; qualquer mandamento de vida é preenchido por um determinado cânone de “deves” e “não deves”; remove-se assim um elemento hostil e inibitório no caminho da vida. A moral antinatural – ou seja, quase toda moral que até agora foi ensinada, venerada e pregada – volta-se, de modo oposto, contra os instintos vitais: é uma condenação desses instintos, ora secreta, ora explícita e impudente. Quando ela diz “Deus observa os corações”, diz Não tanto aos desejos mais baixos quanto aos mais altos da vida, colocando Deus na posição de inimigo da vida. O santo com o qual Deus se encanta é um castrado ideal. A vida termina onde o “Reino de Deus” começa...&lt;br /&gt; &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="center"&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="font-family:verdana;"&gt;V&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="center"&gt;&lt;span style="font-family:verdana;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:verdana;"&gt;Compreendendo o sacrilégio que tal revolta contra a vida representa, tal como se tornou quase sacrossanta na moral cristã, também se compreende, felizmente, outra coisa: o caráter fútil, aparente, absurdo e mendaz de tal revolta. Uma condenação da vida pelo próprio vivente no fim continua sendo apenas um sintoma de um tipo específico de vida: com isso a questão de ela ser justificada ou não nem chega ser levantado. Seria necessário posicionar-se fora da vida, e ainda conhecê-la tão bem quanto um, quanto muitos, quando todos que a viveram, para que seja permitido mesmo tocar o problema do valor da vida: razões suficientes para compreendermos que esse problema é inacessível a nós. Quando falamos de valores, falamos com a inspiração, com a perspectiva das coisas que são parte da vida: a própria vida nos força a estabelecer valores; a vida mesma valora através de nós quando estabelecemos valores. Segue-se disso que mesmo aquela moral antinatural que concebe Deus como contra-conceito e condenação da vida é apenas um juízo de valor da vida – mas de que vida? De que tipo de vida? Já dei a resposta: da vida decadente, enfraquecida, cansada, condenada. A moral, tal como até aqui foi entendida – como por fim foi formulada uma vez mais por Schopenhauer, como “negação da vontade de vida” –, é o próprio instinto da decadência que se fez um imperativo. Ela diz: “Pereça!”; é uma condenação pronunciada pelo condenado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;VI&lt;br /&gt;Finalmente, consideremos quão ingênuo é dizer: “O homem deveria ser de tal ou de tal modo!” A realidade nos mostra uma encantadora riqueza de tipos, uma abundante profusão de jogos e mudanças de forma – e um miserável serviçal de um moralista comenta: “Não! O homem deveria ser diferente.” Esse beato pedante até sabe como o homem deveria ser: ele pinta seu retrato na parede e diz: “Ecce homo!”(1) Mas mesmo quando o moralista dirige-se a apenas um indivíduo e diz “você deveria ser de tal e de tal modo!”, ainda não deixa de ser ridículo. O ser humano, visto pela frente ou por trás, é um pedaço de destino, uma lei a mais, uma necessidade a mais para tudo que há de vir e será. Dizer-lhe “muda-te” é exigir que tudo seja mudado, mesmo retroativamente. E realmente houve moralistas conseqüentes que desejavam tornar o homem diferente, isto é, virtuoso – desejavam-no reformado à sua própria imagem, como pedante: e, para tal fim, negavam o mundo! Nenhuma pequena loucura! Nenhum modesto tipo de imodéstia!&lt;br /&gt;A moral, à medida que condena por sua própria causa, e não a partir dos interesses, considerações e pontos de vista da vida, é um erro específico pelo qual não se deve ter compaixão – uma idiossincrasia de degenerados que causou danos imensuráveis.&lt;br /&gt;Nós outros, nós imoralistas, pelo contrário, fizemos de nosso coração uma morada para todo tipo de entendimento, compreensão e aprovação. Não negamos facilmente; encontramos honra no fato de sermos afirmativos. Cada vez mais, nossos olhos se abrem a uma economia que necessita e sabe utilizar tudo que a sagrada insensatez do padre, a doentia razão do padre, rejeita – aquela economia na lei da vida que encontra alguma vantagem mesmo nas espécies mais repulsivas de pedantes, padres e virtuosos. Que vantagem? Mas nós mesmos, nós imoralistas, somos a resposta.&lt;br /&gt;1 – Significa “Eis o homem”. Frase bíblica dita por Pilatos a Cristo em &lt;/span&gt;&lt;a href="http://www.ateus.net/biblia/43Joao19.php" target="_blank"&gt;&lt;span style="font-family:verdana;"&gt;João 19:5&lt;/span&gt;&lt;/a&gt;&lt;span style="font-family:verdana;"&gt;. (N. do T.)&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:verdana;"&gt;&lt;/span&gt; &lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/32811404-115845842623710995?l=nietzschebrasil.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://nietzschebrasil.blogspot.com/feeds/115845842623710995/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=32811404&amp;postID=115845842623710995&amp;isPopup=true' title='6 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/32811404/posts/default/115845842623710995'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/32811404/posts/default/115845842623710995'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://nietzschebrasil.blogspot.com/2006/09/moral-como-antinatureza.html' title='A MORAL COMO ANTINATUREZA'/><author><name>Alexandre Anello</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06749747605638893158</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='31' height='32' src='http://bp2.blogger.com/_L5qoaf3Xi3U/SE3s_fYeVLI/AAAAAAAAABo/CvlzcwYBP3c/S220/Baselworld2005.JPG'/></author><thr:total>6</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-32811404.post-115760726206803309</id><published>2006-09-07T01:29:00.000-04:00</published><updated>2006-09-14T02:04:09.830-04:00</updated><title type='text'>O DESPERTAR E A FESTA DO BURRO</title><content type='html'>&lt;div align="center"&gt;&lt;a href="http://photos1.blogger.com/blogger/2109/3592/1600/Nietzche.2.jpg"&gt;&lt;img style="DISPLAY: block; MARGIN: 0px auto 10px; CURSOR: hand; TEXT-ALIGN: center" alt="" src="http://photos1.blogger.com/blogger/2109/3592/320/Nietzche.jpg" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;strong&gt;&lt;br /&gt;O Despertar&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;I&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;Depois do canto do viandante e da sombra, a caverna encheu-se subitamente de risos e ruídos; e como todos os hóspedes falavam ao mesmo tempo e até o próprio jumento com tal animação não podia estar quieto, Zaratustra experimentou certo enfado e certo prurido zombeteiro contra as suas visitas, embora tal regozijo o satisfizesse por julgá-lo um sinal de cura. Escapou-se pois, para o exterior, para o ar livre, e falou aos seus animais. “Para onde iria parar agora a tua angústia? – disse, e já se lhe dissipava o enfado. Parece terem esquecido na minha moradia os seus gritos de angústia, conquanto, desgraçadamente, não perdessem o costume de gritar”. E Zaratustra tapou os ouvidos, porque nesse momento os I A do jumento e a algazarra dos homens superiores formavam um estranho concerto. “Estão alegres – prosseguiu – e, quem sabe?” Talvez à custa do seu hóspede; conquanto aprendessem a rir de mim, não foi o meu riso, todavia, que eles aprenderam. Mas, que importa? São velhos; curam-se à sua maneira, riem a seu modo; os meus ouvidos já suportaram coisas piores. Este dia foi uma vitória. Já retrocede, já foge o espírito do pesadume, meu antigo inimigo mortal. Como quer acabar bem este dia que tão mal e tão maliciosamente principiou! E quer acabar. Chega o crepúsculo; atravessa a cavalo no mar, o bom corcel. Como se meneia o bem-aventurado, que torna na sua sela de púrpura. O céu olha sereno; o mundo dilata-se profundamente; homens singulares, que vos aproximastes de mim, vale a pena viver ao pé de mim!” Assim falava Zaratustra. E nesse somenos tornaram a sair da caverna os gritos e as risadas dos homens superiores. Então Zaratustra continuou: “Excitam-se; o meu cevo faz o seu defeito; também deles foge o inimigo, o espírito do pesadume. Já aprendem a rir de si mesmos: ouvirei bem? As minhas saborosas e rigorosas máximas surtem efeito; e, na verdade, não os alimentei com legumes que incham, mas com um alimento de guerreiros, com um alimento de conquistadores: despertei novos desejos. As suas pernas e os seus braços revelam novas esperanças; o coração dilata-se-lhes. Encontram novas palavras; breve o seu espírito respirará desenfado. Compreendo que este alimento não seja para crianças, nem para mulheres lânguidas. São precisos outros meios para lhes convencer as entranhas: deles não sou médico nem mestre. Foge o tédio desses homens superiores: eis a minha vitória. Sentem-se seguros no meu reino, perdem a imbecil vergonha, espraiam-se. Espraiam os corações; para eles tornam os bons momentos: divertem-se e ruminam: tornam-se agradecidos.&lt;br /&gt;Isso é que eu tenho como melhor sinal; tornam-se agradecidos. Não passará muito tempo que não inventem festas e erijam monumentos comemorativos às suas antigas alegrias. São convalescentes!” Assim falava Zaratustra com íntimo júbilo e olhando para fora. Os animais encostaram-se a ele, honrando-lhe a felicidade e o silêncio.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;II&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;De súbito, porém, sobressaltou-se o ouvido de Zaratustra, porque a caverna, até ali animada pela bulha e o riso, ficou de repente num silêncio sepulcral. Às narinas de Zaratustra chegou um odor agradável de fumo e de incenso, como se tivessem posto pinhas ao lume. “Que sucedera? Que estarão à fazer?” – perguntou a si mesmo, aproximando-se da entrada para ver os convidados sem ser visto. Mas, ó! maravilhas das maravilhas! Que viram então os seus olhos? “Tornaram-se todos religiosos! rezam! estão doidos! – disse numa admiração sem limites. E efetivamente, todos aqueles homens superiores – os dois reis, o ex-papa, o sinistro feiticeiro, o mendigo voluntário, o viandante e a sombra, o velho adivinho, o consciencioso e o homem mais feio – estavam prostrado de joelhos, como velhas beatas: estavam de joelhos a adorar o jumento! E o mais feio dos homens começava a soprar, como se dele quisesse sair qualquer coisa inexprimível; mas, quando afinal se pôs a falar, salmodiava uma piedosa e singular ladainha em louvor do adorado e incensado burro. Eis qual era essa ladainha: “Amém! E honra e estima e gratidão e louvores e forças sejam com o nosso deus, de eternidade em eternidade”. E o burro zurrava: I A.&lt;br /&gt;“Ele leva as nossas cargas; é pacifico e nunca diz não. E o ama o seu deus; castiga-o”. – E o burro zurrava. I A. “Não fala senão para dizer sim ao mundo que criou: assim canta louvores ao seu mundo. A sua astúcia não fala; por isso mesmo rara vez erra”. E o burro zurrava: I A. “Ignorado passa pelo mundo. A cor do seu corpo, como que envolve a sua virtude, é parda. Se tem talento oculta-o; mas todos lhe vêm as compridas orelhas”. E o burro zurrava: I A. “Que recôndita sabedoria é ter orelhas compridas e dizer sempre sim e nunca não. Não criou ele o mundo à sua imagem? Isto é, o mais burro possível?” E o burro zurrava: I A. “Tu segues caminhos direitos e caminhos tortuosos; aquele a que os homens chamam direito ou torto, pouco te importa. O teu reino encontra-se além do bem e do mal. A tua inocência é não saber o que se chama inocência”. E o burro zurrava;: I A. “Vê como tu não repeles ninguém, nem os mendigos, nem os reis. Deixas vir a ti as criancinhas, e se os velhacos te querem tentar dizes simplesmente: I A.” E o burro zurrava,: I A. “Gostas das burras e dos figos frescos, e não és exigente com a comida. Um caldo te satisfaz as entranhas quando tens fome. Nisso reside a sabedoria de um deus”.&lt;br /&gt;E o burro zurrava: I A.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;A Festa do Burro&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;I&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;Neste ponto da ladainha, porém, Zaratustra não se pode conter mais. Gritou por sua vez I A, com voz ainda mais roufenha, do que a do jumento, e de um salto postou-se no centro dos seus enlouquecidos hospedes. “Mas, que estais aí fazendo, filhos dos homens? – exclamou, erguendo do solo os que rezavam. – Pobres de vós, se outro que não fosse Zaratustra vos visse! Todos acreditariam que com a vossa nova fé, vos havíeis tornado piores blasfemos, ou as mais insensatas velhas. E tu, antigo Papa, como podes estar de acordo contigo mesmo, adorando assim um burro como se fosse um deus?” “Perdoa, Zaratustra – respondeu o Papa; – mas das coisas de Deus ainda eu entendo mais do que tu. Antes adorar a Deus sob esta forma do que o não adorar de forma nenhuma! Reflete nestas palavras, eminente amigo; breve compreenderás que contém sabedoria. Aquele que diz: “Deus é espírito” foi o que até hoje deu na terra o passo, o salto maior para a incredulidade! Tais palavras não são fáceis de reparar na terra! O meu velho coração salta e rejubila ao ver que ainda há que adorar na terra. Perdoa, Zaratustra, ao velho coração de um Papa religioso!” “E tu, – disse Zaratustra ao viandante e à sombra – dizes-te e imaginas ser um espírito livre? E entregas-te a semelhantes idolatrias e momices? Antes adorar a Deus sob esta forma do que o não. Na verdade, fazes ainda aqui coisas piores do que as que fazias ao lado das raparigas morenas e maliciosas, novo e malicioso crente”. Respondeu o viandante e a sombra: “Tens razão; mas que havia eu de fazer? Digas o que disseres, Zaratustra, o Deus antigo revive. A causa de tudo isto é o mais feio dos homens: foi ele que o ressuscitou. E se diz que em tempos o matou, a morte entre os deuses é tão só um prejuízo”. – “E tu maligno velho encantador, que fizeste? – prosseguiu Zaratustrta. – Quem há de crer em ti nestes tempos de liberdade, quando tu crês em tais burricadas divinas? Como tu, tão astuto, pudeste cometer semelhante sandice!” “Tens razão, Zaratustra – respondeu o astuto encantador – foi uma sandice e bem cara me custou”. “E tu também – disse Zaratustra ao consciencioso, – reflete e põe o dedo no nariz! Nada vês nisto que te perturbe a consciência? Não será o teu espírito demasiado limpo para tais adorações e para a presunção de semelhantes boatos? “Há neste espetáculo – responde o consciencioso levando o dedo ao nariz – há neste espetáculo qualquer coisa que faz bem à minha consciência. Talvez eu não tenha o direito de crer em Deus; mas o certo é que, sob esta forma, Deus ainda me parece altamente digno de fé. Deus deve ser eterno, segundo o testemunho dos mais piedosos: quem tanto tempo tem, tempo toma. De forma que com toda a lentidão e estupidez que queira, pode ir verdadeiramente longe. E quem tenha inteligência demais podia muito bem suspirar pela estupidez e pela loucura. Quando não, pensa em ti mesmo, Zaratustra! Tu mesmo, na verdade, te poderias muito bem tornar burro à força de sabedoria. Um sábio perfeito não gosta de seguir os caminhos mais tortuosos? A aparência o diz, Zaratustra: di-lo a tua aparência!”. “E tu, afinal – disse Zaratustra dirigindo-se ao mais feio dos homens, que caminhava no chão estendendo os braços até ao burro para lhe dar vinho a beber, – fala, inexprimível: que foi que fizeste? Dize: que fizeste? É verdade que o ressuscitaste, como estes dizem? E por que? Não estava morto com razão?&lt;br /&gt;Como te converteste? Fala inexprimivel!” “Ó! Zaratustra – respondeu o mais feio dos homens. – És um brejeiro! Se ele ainda vive, ou se revive, ou se morreu completamente, qual de nós o sabe melhor? Sei, porém, de uma coisa, – e contigo a aprendi em tempos, Zaratustra: – aquele que quer matar mais completamente põe-se a rir. “Não é com a cólera, mas com o riso que se mata”. Assim falavas tu noutro tempo. – Ó! Zaratustra! tu que permaneces oculto destruidor sem cólera, santo perigoso, és um brejeiro!”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;II&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;strong&gt;&lt;/strong&gt;&lt;p align="center"&gt;&lt;br /&gt;Então Zaratustra, pasmado de tantos sofismas, tornou a correr para a porta da caverna, e dirigindo-se a todos os convidados começou a gritar com voz forte. “Refinados loucos, truões! Para que dissimular e ocultar-vos diante de mim! Como folgava, contudo, de alegria e malícia o vosso coração, porque afinal tornastes a ser como crianças – isto é, religiosos, – porque afinal tornastes a rezar, a juntar as mãos e a dizer ‘amado Deus! ’”. Mas agora saí deste quarto de crianças, desta minha caverna onde hoje estão como em sua casa todas as infantilidades. Refrescai lá fora os vossos ardores infantis e apaziguai o tumulto do vosso coração! É verdade que se não tornais a ser como crianças, não podereis entrar no tal reino dos céus – e Zaratustra ergueu as mãos para o ar.&lt;br /&gt;– Nós, porém, não queremos entrar no reino dos céus; tornamo-nos homens: por isso mesmo queremos o reino da terra”.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;III&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E tornando a usar da palavra, Zaratustra disse: “Ó! meus novos amigos! Homens singulares! homens superiores! como me agradais desde que vos tornastes alegres! Estais em pleno florescimento, e parece-me que, para flores como vós, são precisas festas novas, uma boa loucura, um culto e uma festa do burro, um velho tresloucado e alegre à maneira de Zaratustra, um turbilhão que com o seu sopro vos varra a alma. Não esqueçais esta noite e esta festa do burro, homens superiores! Foi o que inventastes na minha mansão e, para mim, isso é um bom sinal; não há como convalescentes para inventarem tais coisas! E se tornardes a celebrar esta festa do burro, fazei-a por amor de vós e por amor de mim. E fazei-a em minha lembrança”.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Assim falava Zaratustra. &lt;/p&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/32811404-115760726206803309?l=nietzschebrasil.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://nietzschebrasil.blogspot.com/feeds/115760726206803309/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=32811404&amp;postID=115760726206803309&amp;isPopup=true' title='4 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/32811404/posts/default/115760726206803309'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/32811404/posts/default/115760726206803309'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://nietzschebrasil.blogspot.com/2006/09/o-despertar-e-festa-do-burro.html' title='O DESPERTAR E A FESTA DO BURRO'/><author><name>Alexandre Anello</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06749747605638893158</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='31' height='32' src='http://bp2.blogger.com/_L5qoaf3Xi3U/SE3s_fYeVLI/AAAAAAAAABo/CvlzcwYBP3c/S220/Baselworld2005.JPG'/></author><thr:total>4</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-32811404.post-115705484490967595</id><published>2006-08-31T15:55:00.000-04:00</published><updated>2006-08-31T16:18:02.243-04:00</updated><title type='text'>A FÁBRICA DE IDEAIS</title><content type='html'>&lt;a href="http://photos1.blogger.com/blogger/2109/3592/1600/munch_fredrich_nietzsche_1906%20Edvar%20Munchen.jpg"&gt;&lt;img style="FLOAT: right; MARGIN: 0px 0px 10px 10px; CURSOR: hand" alt="" src="http://photos1.blogger.com/blogger/2109/3592/400/munch_fredrich_nietzsche_1906%20Edvar%20Munchen.jpg" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;Ao lado, obra do expressionista norueguês, &lt;strong&gt;Edvar Munchen&lt;/strong&gt; (1863-1944), mais um ferrenho crítico da Modernidade / Modernismo e sua devoção à &lt;span style="color:#ff0000;"&gt;&lt;strong&gt;&lt;em&gt;razão&lt;/em&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;&lt;strong&gt;Munchen&lt;/strong&gt; também pintou &lt;strong&gt;"O Grito" (Le Cri),&lt;/strong&gt; sua mais famosa obra. A essência é a mesma do &lt;strong&gt;Anjo da Modernidade de Paul Klee&lt;/strong&gt;: olhar para trás e se assustar com a &lt;em&gt;&lt;strong&gt;obra humana&lt;/strong&gt;&lt;/em&gt; construída sobre os pilares da &lt;em&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="color:#ff0000;"&gt;razão&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/em&gt;...&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;.&lt;br /&gt;&lt;div align="center"&gt;&lt;em&gt;&lt;span style="font-family:arial;font-size:180%;color:#3333ff;"&gt;&lt;strong&gt;A FÁBRICA DE IDEAIS&lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;/em&gt;&lt;/div&gt;&lt;strong&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;br /&gt;Genealogia da Moral &lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;– Uma polêmica – pp. 37-39 &lt;div align="center"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;– Alguém quer descer o olhar sobre o segredo de como se fabricam ideais na terra? Quem tem a coragem para isso?... Muito bem! Aqui se abre a vista a essa negra oficina. Espere ainda um instante, senhor Curioso e Temerário: seu olho deve primeiro se acostumar a essa luz falsa e cambiante... Certo! Basta! Fale agora! Que sucede ali embaixo? Diga o que vê, homem da curiosidade perigosa – agora sou eu quem escuta. –&lt;br /&gt;– “Eu nada vejo, mas por isso ouço muito bem. É um cochichar e sussurrar cauteloso, sonso, manso, vindo de todos os cantos e quinas. Parece-me que mentem; uma suavidade visguenta escorre de cada som. A fraqueza é mentirosamente mudada em mérito, não há dúvida – é como você disse” –&lt;br /&gt;– Prossiga!&lt;br /&gt;– “e a impotência que não acerta contas é mudada em ‘bondade’; a baixeza medrosa, em ‘humildade’; a submissão àqueles que se odeia em ‘obediência’ (há alguém que dizem impor esta submissão – chamam-no Deus). O que há de inofensivo, fraco, a própria covardia na qual é pródigo, seu aguardar-na-porta, seu inevitável ter-de-esperar, recebe aqui o bom nome de ‘paciência’, chama-se também a virtude; o não-poder-vingar-se chama-se não-querer-vingar-se, talvez mesmo perdão (‘pois eles não sabem o que fazem – somente nós sabemos o que eles fazem!’). Falam também do ‘amor aos inimigos’ – e suam ao falar disso.”&lt;br /&gt;– Prossiga!&lt;br /&gt;– “São miseráveis, não há dúvida, esses falsificadores e cochichadores dos cantos, embora se mantenham aquecidos agachando-se apertados – mas eles me dizem que sua miséria é uma eleição e distinção por parte de Deus, que batemos nos cães que mais amamos; talvez essa miséria seja uma preparação, uma prova, um treino, talvez ainda mais – algo que um dia será recompensado e pago com juros enormes, em ouro, não! Em felicidade. A isto chamam de ‘bem-aventurança’, ‘beatitude’.&lt;br /&gt;– Prossiga!&lt;br /&gt;– “Agora me dão a entender que não apenas são melhores que os poderosos, os senhores da terra cujo escarro têm de lamber (não por temor, de modo algum por temor! E sim porque Deus ordena que seja honrada a autoridade) – que não apenas são melhores, mas também ‘estão melhores’, ou de qualquer modo estarão um dia. Mas basta, basta! Não agüento mais. O ar ruim! O ar ruim! Esta oficina onde se fabricam ideais – minha impressão é de que está fedendo de tanta mentira!”&lt;br /&gt;– Não! Um momento! Você ainda não falou no golpe de mestre desses nigromantes, que produzem leite, bancura e inocência de todo negror – não percebeu a consumada perfeição do seu refinamento, a sua mais ousada, sutil, engenhosa e mendaz estratégia de artista? Preste atenção! Esses animais cheios de ódio e vingança – que fazem justamente do ódio e da vingança? Você ouviu essas palavras? Você suspeitaria, ouvindo apenas as suas palavras, que se encontra homens do ressentimento?...&lt;br /&gt;– “Compreendo; vou abrir mais uma vez os ouvidos (ah! E fechar o nariz). Somente agora escuto o que eles tanto diziam: ‘Nós, bons – nós somos os justos’ – o que eles pretendem não chamam acerto de contas, mas ‘triunfo da justiça’; o que eles odeiam não é o seu inimigo, não! Eles odeiam a ‘injustiça’, a ‘falta de Deus’; o que eles crêem e esperam não é a esperança de vingança, a doce embriaguez da vingança (– ‘mais doce que mel’, já dizia Homero), mas a vitória de Deus, do deus justo sobre os ateus; o que lhes resta para amar na terra não são os meus irmãos no ódio, mas seus ‘irmãos no amor’, como dizem, todos os bons e justos da terra.&lt;br /&gt;– E como chamam aquilo que lhes serve de consolo por todo o sofrimento da vida? – sua fantasmagoria da bem-aventurança futura antecipada?&lt;br /&gt;– “Quê? Estou ouvindo bem? A isto chamam de ‘Juízo Final’, o advento do seu reino, do ‘Reino de Deus’ – mas por enquanto vivem ‘na fé’, ‘no amor’, ‘na esperança’.”&lt;br /&gt;– Basta! Basta! &lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/32811404-115705484490967595?l=nietzschebrasil.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://nietzschebrasil.blogspot.com/feeds/115705484490967595/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=32811404&amp;postID=115705484490967595&amp;isPopup=true' title='7 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/32811404/posts/default/115705484490967595'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/32811404/posts/default/115705484490967595'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://nietzschebrasil.blogspot.com/2006/08/fbrica-de-ideais.html' title='A FÁBRICA DE IDEAIS'/><author><name>Alexandre Anello</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06749747605638893158</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='31' height='32' src='http://bp2.blogger.com/_L5qoaf3Xi3U/SE3s_fYeVLI/AAAAAAAAABo/CvlzcwYBP3c/S220/Baselworld2005.JPG'/></author><thr:total>7</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-32811404.post-115638677530160676</id><published>2006-08-23T22:13:00.000-04:00</published><updated>2006-08-24T14:10:31.923-04:00</updated><title type='text'>CRÍTICA À RAZÃO UNIVERSAL DE KANT</title><content type='html'>&lt;a href="http://photos1.blogger.com/blogger/2109/3592/1600/nietzsch.jpg"&gt;&lt;img style="FLOAT: left; MARGIN: 0px 10px 10px 0px; CURSOR: hand" alt="" src="http://photos1.blogger.com/blogger/2109/3592/200/nietzsch.jpg" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Em homenagem ao aniversário da morte de Nietzsche (15/10/1844 - 25/08/1900), postarei essa semana às críticas do filósofo à Kant (1724 - 1804) e à Razão Universal Kantiana&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;strong&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;strong&gt;.&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;strong&gt;.&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;strong&gt;Fonte: Crepúsculo dos Ídolos, Aforismas I a VI.&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;strong&gt;&lt;/strong&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;strong&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="center"&gt;&lt;strong&gt;I&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="center"&gt;&lt;strong&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="center"&gt;&lt;strong&gt;.&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Os senhores me perguntam o que são todas as idiossincrasias dos filósofos?... Por exemplo, sua falta de sentido histórico, seu ódio contra a representação mesma do vir-a-ser, seu egipcismo. Eles acreditam que desistoricizar uma coisa, torná-la uma sub specie aeterni, construir a partir dela uma múmia, é uma forma de honrá-la. Tudo o que os filósofos tiveram nas mãos nos últimos milênios foram múmias conceituais; nada de efetivamente vital veio de suas mãos. Eles matam, eles empalham, quando adoram, esses senhores idólatras de conceitos. Eles trazem um risco de vida para todos, quando adoram. A morte, a mudança, a idade, do mesmo modo que a geração e o crescimento são para eles objeções – e até refutações. O que é não vem-a-ser; o que vem-a-ser não é... Agora, eles acreditam todos, mesmo com desespero, no Ser. No entanto, visto que não conseguem se apoderar deste, eles buscam os fundamentos pelos quais ele se lhes oculta. “É preciso que uma aparência, que um ‘engano’ aí se imiscua, para que não venhamos a perceber o ser: onde está aquele que nos engana?” “Nós o temos, eles gritam venturosamente, o que nos engana é a sensibilidade! Esses sentidos, que por outro lado são mesmo totalmente imorais, nos enganam quanto ao mundo verdadeiro. Moral: conseguir desembaraçar-se do engano dos sentidos, do vir-a-ser, da história, da mentira. História não é outra coisa senão crença nos sentidos, crença na mentira. Moral: dizer não a tudo o que nos faz crer nos sentidos, a todo o resto da humanidade. Tudo isso é o “povo”. Ser filósofo, ser múmia, apresentar o monótonoteísmo através de uma mímica de coveiros! – E antes de tudo para fora com o corpo, esta idée fixe dos sentidos digna de compadecimento! Este corpo acometido por todas as falhas da lógica, refutado, até mesmo impossível, apesar de ser suficientemente impertinente para se portar como se fosse efetivo!”...&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="center"&gt;&lt;strong&gt;II&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="center"&gt;&lt;strong&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="center"&gt;&lt;strong&gt;.&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Eu coloco de lado, com elevado respeito, o nome de Heráclito. Se o povo dos outros filósofos rejeitou o testemunho dos sentidos porque esses indicavam a multiplicidade e a transformação, ele rejeitou seu testemunho porque indicava as coisas como se elas possuíssem unidade e duração. Também Heráclito foi injusto com os sentidos. Estes não mentem nem como crêem os Eleatas, nem como ele o acreditava – eles não mentem de forma alguma. O que nós fazemos com seus testemunhos é que introduz pela primeira vez a mentira. Por exemplo, a mentira da unidade, a mentira da coisidade, da substância, da duração... A “razão” é a causa de falsificarmos o testemunho dos sentidos. Até onde os sentidos indicam o vir-a-ser, o desvanecer, a mudança, eles não mentem... Mas Heráclito sempre terá razão quanto ao fato de que o Ser é uma ficção vazia. O mundo “aparente” é o único: o “mundo verdadeiro” é apenas um mundo acrescentado de maneira mendaz...&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="center"&gt;&lt;strong&gt;III&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="center"&gt;&lt;strong&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="center"&gt;&lt;strong&gt;.&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;– E que finos instrumentos de observação temos em nossos sentidos! Este nariz, por exemplo, do qual nenhum filósofo ainda falou com veneração e gratidão. Ele é mesmo em verdade o mais delicado dos instrumentos que se encontram à nossa disposição: ele consegue constatar diferenças mínimas de movimento, que o próprio espectroscópio não constata. Hoje não possuímos ciência senão enquanto nos decidimos por aceitar os sentidos: por torná-los mais incisivos, por armá-los, por fazê-los aprender a pensar até a fim. O resto é algo que nasceu abortado e que ainda-não-é-ciência: Metafísica, Teologia, Psicologia, Teoria do Conhecimento. Ou ciência-formal, teoria dos signos: exatamente como a lógica e aquela lógica aplicada, a matemática. Nelas a efetividade não se apresenta absolutamente como problema nem sequer uma única vez. Elas tampouco se interessam pela colocação da questão acerca de que valor em geral possui uma convenção de signos tal como a lógica. –&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="center"&gt;&lt;strong&gt;IV&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="center"&gt;&lt;strong&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="center"&gt;&lt;strong&gt;.&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;A outra idiossincrasia dos filósofos não é menos perigosa: ela consiste em confundir o que vem em último lugar e o que vem em primeiro lugar. Eles colocam no início enquanto início o que vem no fim (infelizmente! pois não devia vir em momento algum!): os “conceitos mais elevados”, os conceitos mais universais e vazios, a derradeira fumaça da realidade que evapora. De novo, uma tal disposição é apenas a expressão de seu modo de venerar: o mais elevado não tem o direito de surgir do mais baixo, não tem de modo algum o direito de ter surgido... Moral: tudo o que é de primeira linha precisa ser causa sui. A proveniência a partir de algo diverso vale como objeção, como colocação em dúvida de seu valor. Todos os valores superiores são de primeira linha, todos os conceitos mais elevados, o ser, o incondicionado, o Bem, o verdadeiro, o perfeito. Nenhum deles pode ter experimentado o vir-a-ser, conseqüentemente todos precisam ser causa sui. Nenhum deles pode porém ser ao mesmo tempo desigual entre si, pode estar em contradição consigo mesmo... É assim que eles descobrem seu conceito estupendo de “Deus”... O derradeiro, o mais tênue, o mais vazio é posto como o primeiro, como causa em si, como &lt;em&gt;ens realissimum&lt;/em&gt;... Ah! A humanidade levou realmente a sério as dores cerebrais desses doentes, desses tecelões de teias de aranha! – E ela pagou caro por isso!...&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="center"&gt;&lt;strong&gt;V&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="center"&gt;&lt;strong&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="center"&gt;&lt;strong&gt;.&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;– Vejamos em contraposição de que modo diverso nós (– eu digo de maneira mais educada nós...) consideramos o problema do erro e da aparência. Outrora tomava-se a transformação, a mudança, o vir-a-ser em geral como prova da aparência, como um sinal de que algo tinha apresentado que necessariamente nos conduzia ao erro. Hoje, ao contrário, vemos até que ponto o fato de o preconceito da razão nos obrigar a fixar a unidade, a identidade, a duração, a substância, a causa, a coisidade, o Ser, nos enreda de certa maneira no erro, nos leva necessariamente ao erro. Assim, estamos certos de que, sobre a base de uma verificação rigorosa junto a nós mesmos quanto a esse ponto, o erro está aí. O que se passa aqui, portanto, não é diverso do que acontece com os movimentos dos grandes astros: no que concerne a eles, os nossos olhos são os advogados contínuos do erro; no que concerne ao preconceito da razão, é a nossa linguagem. Segundo seu aparecimento, a linguagem pertence ao tempo da forma mais rudimentar de psicologia. Inserimo-nos em um fetichismo grosseiro quando trazemos à consciência os pressupostos fundamentais da linguagem metafísica: ou, em alemão, da razão. Esse fetichismo vê por toda a parte agentes e ações; ele crê na vontade enquanto causa em geral; ele crê no “Eu”, no Eu enquanto Ser, no Eu enquanto Substância, e projeta essa crença no Eu-substância para todas as coisas. – Só a partir daí a consciência cria então o conceito “coisa”... Por toda parte, o Ser é introduzido através do pensamento, imputado como causa. Somente a partir da concepção do “Eu” segue, enquanto derivado, o conceito “Ser”... No começo encontra-se a grande imposição do erro: a assunção de que a vontade é algo que atua – de que a vontade é uma faculdade... Hoje sabemos que ela é meramente uma palavra... Muito mais tarde, em um mundo milhões de vezes mais esclarecido, veio com espanto à consciência dos filósofos a segurança, a certeza subjetiva na manipulação das categorias da razão. Eles concluíram que elas não poderiam provir da empiria – toda a empiria já se encontra para eles em contradição. De onde elas provêm então? – E na Índia, tanto quanto na Grécia, cometeu-se o mesmo engano: “é preciso que já tenhamos estado ao menos uma vez em um mundo mais elevado (ao invés de em um muito inferior: o que teria sido a verdade!) e que aí tenhamos nos sentido em casa. É preciso que tenhamos sido divinos, pois temos a razão!” De fato, nada teve até aqui um poder de convencimento mais ingênuo do que o erro do Ser – tal como foi formulado, por exemplo, pelos eleatas: pois ele abarca toda e qualquer palavra, toda e qualquer frase, que pronunciamos! – Também os oponentes dos eleatas sucumbiram à sedução de seu conceito de Ser: Demócrito entre outros, quando inventou seu átomo... A “razão” na linguagem: oh! Mas que velha matrona enganadora! Eu temo que não venhamos a nos ver livres de Deus porque ainda acreditamos na gramática...&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="center"&gt;&lt;strong&gt;VI&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="center"&gt;&lt;strong&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="center"&gt;&lt;strong&gt;.&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;As pessoas ficarão gratas para comigo, se resumir uma visão tão essencial e tão nova em quatro teses: facilitarei com isso a compreensão e provocarei a contradição.&lt;br /&gt;Primeira Proposição. Os motivos que fizeram com que se designasse “este” mundo como aparente fundamentam muito mais sua realidade. – Um outro tipo de realidade é absolutamente indemonstrável.&lt;br /&gt;Segunda Proposição. As características que foram dadas ao “Ser verdadeiro” das coisas são características do não-Ser, do Nada. Construiu-se o “mundo verdadeiro” a partir da contradição com o mundo efetivo: de fato, o mundo verdadeiro é um mundo aparente, à medida que não passa de uma ilusão ótica de ordem moral.&lt;br /&gt;Terceira Proposição. Criar a fábula de um mundo “diverso” desse não tem sentido algum se pressupusermos que um instinto de calúnia, de amesquinhamento, de suspeição da vida não exerce poder sobre nós. Neste último caso, nos vingamos da vida com a fantasmagoria de uma “outra” vida, de uma vida “melhor”.&lt;br /&gt;Quarta Proposição. Cindir o mundo em um “verdadeiro” e um “aparente”, seja do modo cristão, seja do modo kantiano (um cristão pérfido no fim das contas) é apenas uma sugestão da décadence: um sintoma de vida que decai... O fato de o artista avaliar mais elevadamente a aparência do que a realidade não é nenhuma objeção contra essa proposição. Pois “a aparência” significa aqui uma vez mais a realidade; só que sob a forma de uma seleção, de uma intensificação, de uma correção... O artista trágico não é nenhum pessimista. Ele diz justamente sim a tudo que é digno de questão e passível mesmo de produzir terror, ele é &lt;em&gt;&lt;strong&gt;dionisíaco&lt;/strong&gt;&lt;/em&gt;...&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;strong&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;strong&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/32811404-115638677530160676?l=nietzschebrasil.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://nietzschebrasil.blogspot.com/feeds/115638677530160676/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=32811404&amp;postID=115638677530160676&amp;isPopup=true' title='9 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/32811404/posts/default/115638677530160676'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/32811404/posts/default/115638677530160676'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://nietzschebrasil.blogspot.com/2006/08/crtica-razo-universal-de-kant.html' title='CRÍTICA À RAZÃO UNIVERSAL DE KANT'/><author><name>Alexandre Anello</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06749747605638893158</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='31' height='32' src='http://bp2.blogger.com/_L5qoaf3Xi3U/SE3s_fYeVLI/AAAAAAAAABo/CvlzcwYBP3c/S220/Baselworld2005.JPG'/></author><thr:total>9</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-32811404.post-115604800310248411</id><published>2006-08-20T00:19:00.000-04:00</published><updated>2006-08-25T16:23:06.150-04:00</updated><title type='text'>CRISTÃOS – NAZISMO E NIETZSCHE</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;a href="http://photos1.blogger.com/blogger/2109/3592/1600/Papa.jpg"&gt;&lt;img style="FLOAT: left; MARGIN: 0px 10px 10px 0px; CURSOR: hand" alt="" src="http://photos1.blogger.com/blogger/2109/3592/400/Papa.jpg" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;strong&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;strong&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;strong&gt;Na foto ao lado, Hitler (1889-1945) recebe a benção do Papa Pio XII (1876-1958) para exterminar judeus. Creio que isso acaba com o mal-entendido sobre Nietzsche (1844-1900) ter sido a eminência-parda do nazismo.&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;strong&gt;Ainda não? &lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;strong&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;strong&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;strong&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;strong&gt;Então vejamos o que disse Martinho Lutero (1483-1546) sobre os judeus:&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;strong&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Palavras de Lutero: &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;"Em primeiro lugar, suas sinagogas deveriam ser queimadas... Em segundo lugar, suas casas também deveriam ser demolidas e arrasadas... Em terceiro, seus livros de oração e Talmudes deveriam ser confiscados... Em quarto, os rabinos deveriam ser proibidos de ensinar, sob pena de morte... Em quinto lugar, os passaportes e privilégios de viagem deveriam ser absolutamente vetados aos judeus... Em sexto, eles deveriam ser proibidos de praticar a agiotagem [cobrança de juros extorsivos sobre empréstimos]... Em sétimo lugar, os judeus e judias jovens e fortes deveriam pôr a mão na debulhadeira, no machado, na enxada, na pá, na roca e no fuso para ganhar o seu pão no suor do seu rosto... Deveríamos banir os vis preguiçosos de nossa sociedade ... Portanto, fora com eles...Resumindo, caros príncipes e nobres que têm judeus em seus domínios, se este meu conselho não vos serve, encontrai solução melhor, para que vós e nós possamos nos ver livres dessa insuportável carga infernal – os judeus." &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;strong&gt;- Martinho Lutero - líder da Reforma Protestante, "On the Jews and Their Lies" - 1543. &lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;strong&gt;.&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;strong&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;strong&gt;Links: &lt;a href="http://en.wikipedia.org/wiki/On_the_Jews_and_Their_Lies"&gt;http://en.wikipedia.org/wiki/On_the_Jews_and_Their_Lies&lt;/a&gt; &lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;strong&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;strong&gt;.&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;strong&gt;e&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;strong&gt;.&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;strong&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;strong&gt;&lt;a href="http://www.fordham.edu/halsall/source/luther-jews.html"&gt;http://www.fordham.edu/halsall/source/luther-jews.html&lt;/a&gt;. &lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;p&gt;&lt;strong&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/p&gt;&lt;p&gt;&lt;strong&gt;.&lt;/strong&gt;&lt;/p&gt;&lt;p&gt;&lt;strong&gt;&lt;/p&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;Agora vejamos o que disse &lt;strong&gt;&lt;span style="color:#ff0000;"&gt;Nietzsche sobre os sacerdotes (iguais ao Papa e Lutero):&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="color:#ff0000;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="center"&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="color:#ff0000;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="center"&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="color:#ff0000;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="center"&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="color:#ff0000;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="center"&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="color:#ff0000;"&gt;Lei contra o cristianismo&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Datada do dia da Salvação: primeiro dia do ano Um (em 30 de Setembro de 1888, pelo falso calendário).&lt;/em&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="color:#ff0000;"&gt;Guerra de morte contra o vício: o vício é o cristianismo&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="color:#ff0000;"&gt;Artigo Primeiro&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt; – Qualquer espécie de antinatureza é vício. &lt;strong&gt;&lt;span style="color:#ff0000;"&gt;O tipo de homem mais vicioso é o padre: ele ensina a antinatureza. Contra o padre não há razões: há cadeia.&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#ff0000;"&gt;&lt;strong&gt;Artigo Segundo&lt;/strong&gt; – &lt;strong&gt;Qualquer tipo de colaboração a um ofício divino é um atentado contra a moral pública. Seremos mais ríspidos com protestantes que com católicos, e mais ríspidos com os protestantes liberais que com os ortodoxos. Quanto mais próximo se está da ciência, maior o crime de ser cristão. Conseqüentemente, o maior dos criminosos é filósofo.&lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Artigo Terceiro&lt;/strong&gt; – O local amaldiçoado onde o cristianismo chocou seus ovos de basilisco deve ser demolido e transformado no lugar mais infame da Terra, constituirá motivo de pavor para a posteridade. Lá devem ser criadas cobras venenosas.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Artigo Quarto&lt;/strong&gt; – Pregar a castidade é uma incitação pública à antinatureza. Qualquer desprezo à vida sexual, qualquer tentativa de maculá-la através do conceito de “impureza” é o maior pecado contra o Espírito Santo da Vida.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#ff0000;"&gt;&lt;strong&gt;Artigo Quinto&lt;/strong&gt; – &lt;strong&gt;Comer na mesma mesa que um padre é proibido: quem o fizer será excomungado da sociedade honesta. O padre é o nosso chandala – ele será proscrito, lhe deixaremos morrer de fome, jogá-lo-emos em qualquer espécie de deserto.&lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#ff0000;"&gt;&lt;strong&gt;Artigo Sexto&lt;/strong&gt; – &lt;strong&gt;A história “sagrada” será chamada pelo nome que merece: história maldita; as palavras “Deus”, “salvador”, “redentor”, “santo” serão usadas como insultos, como alcunhas para criminosos.&lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Artigo Sétimo&lt;/strong&gt; – O resto nasce a partir daqui.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;.. &lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/32811404-115604800310248411?l=nietzschebrasil.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://nietzschebrasil.blogspot.com/feeds/115604800310248411/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=32811404&amp;postID=115604800310248411&amp;isPopup=true' title='15 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/32811404/posts/default/115604800310248411'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/32811404/posts/default/115604800310248411'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://nietzschebrasil.blogspot.com/2006/08/cristos-nazismo-e-nietzsche.html' title='CRISTÃOS – NAZISMO E NIETZSCHE'/><author><name>Alexandre Anello</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06749747605638893158</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='31' height='32' src='http://bp2.blogger.com/_L5qoaf3Xi3U/SE3s_fYeVLI/AAAAAAAAABo/CvlzcwYBP3c/S220/Baselworld2005.JPG'/></author><thr:total>15</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-32811404.post-115593058792429857</id><published>2006-08-18T15:46:00.000-04:00</published><updated>2006-08-18T15:49:47.936-04:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;a href="http://photos1.blogger.com/blogger/2109/3592/1600/Niet14.jpg"&gt;&lt;img style="FLOAT: left; MARGIN: 0px 10px 10px 0px; CURSOR: hand" alt="" src="http://photos1.blogger.com/blogger/2109/3592/200/Niet14.jpg" border="0" /&gt;&lt;/a&gt; Em algum remoto rincão do universo cintilante que se derrama em um sem-número de sistemas solares, havia uma vez um astro, onde animais inteligentes inventaram o conhecimento. Foi o minuto mais soberbo e mais mentiroso da ‘história universal’: mas também foi somente um minuto. Passados poucos fôlegos da natureza congelou-se o astro, e os animais inteligentes tiveram de morrer. – Assim poderia alguém inventar uma fábula e nem por isso teria ilustrado suficientemente quão lamentável, quão fantasmagórico e fugaz, quão sem finalidade e gratuito fica o intelecto humano dentro da natureza. Houve eternidades em que ele não estava; quando de novo ele tiver passado, nada terá acontecido. Pois não há para aquele intelecto nenhuma missão mais vasta que conduzisse além da vida humana. Ao contrário, ele é humano, e somente seu possuidor e genitor o toma tão pateticamente, como se os gonzos do mundo girassem nele. Mas se pudéssemos entender-nos com a mosca, perceberíamos então que também ela bóia no ar com esse páthos e sente em si o centro voante deste mundo. Não há nada tão desprezível e mesquinho na natureza que, com um pequeno sopro daquela força do conhecimento, não transbordasse logo um odre; e como todo transportador de carga quer ter seu admirador, mesmo o mais orgulhoso dos homens, o filósofo, pensa ver por todos os lados os olhos do universo telescopicamente em mira sobre seu agir e pensar.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/32811404-115593058792429857?l=nietzschebrasil.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://nietzschebrasil.blogspot.com/feeds/115593058792429857/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=32811404&amp;postID=115593058792429857&amp;isPopup=true' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/32811404/posts/default/115593058792429857'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/32811404/posts/default/115593058792429857'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://nietzschebrasil.blogspot.com/2006/08/em-algum-remoto-rinco-do-universo.html' title=''/><author><name>Alexandre Anello</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06749747605638893158</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='31' height='32' src='http://bp2.blogger.com/_L5qoaf3Xi3U/SE3s_fYeVLI/AAAAAAAAABo/CvlzcwYBP3c/S220/Baselworld2005.JPG'/></author><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-32811404.post-115570596632767040</id><published>2006-08-16T01:24:00.000-04:00</published><updated>2006-08-18T19:39:15.340-04:00</updated><title type='text'>ASSIM FALOU ZARATUSTRA</title><content type='html'>&lt;a href="http://photos1.blogger.com/blogger/2109/3592/1600/Friedrich_el_inactual.0.jpg"&gt;&lt;img style="DISPLAY: block; MARGIN: 0px auto 10px; CURSOR: hand; TEXT-ALIGN: center" alt="" src="http://photos1.blogger.com/blogger/2109/3592/320/Friedrich_el_inactual.0.jpg" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="center"&gt;&lt;strong&gt;Preâmbulo de Zaratustra&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="center"&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;I&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Aos trinta anos apartou-se Zaratustra da sua pátria e do lago da sua pátria, e foi-se até a montanha. Durante dez anos gozou por lá do seu espírito e da sua soledade sem se cansar. Variaram, porém, os seus sentimentos, e uma manhã, erguendo-se com a aurora, pôs-se em frente do sol e falou-lhe deste modo:&lt;br /&gt;“Grande astro! Que seria da tua felicidade se te faltassem aqueles a quem iluminas? Faz dez anos que te abeiras da minha caverna, e, sem mim, sem a minha águia e a minha serpente, haver-te-ias cansado da tua luz e deste caminho.&lt;br /&gt;Nós, porém, esperávamos-te todas as manhãs, tomávamos-te o supérfluo e bemdizíamos-te.&lt;br /&gt;Pois bem: já estou tão enfastiado da minha sabedoria, como a abelha que acumulasse demasiado mel. Necessito mãos que se estendam para mim.&lt;br /&gt;Quisera dar e repartir até que os sábios tornassem a gozar da sua loucura e os pobres da sua riqueza.&lt;br /&gt;Por isso devo descer às profundidades, como tu pela noite, astro exuberante de riqueza quando transpões o mar para levar a tua luz ao mundo inferior.&lt;br /&gt;Eu devo descer, como tu, segundo dizem os homens a quem me quero dirigir.&lt;br /&gt;Abençoa-me, pois, olho afável, que podes ver sem inveja até uma felicidade demasiado grande!&lt;br /&gt;Abençoa a taça que quer transbordar, para que dela manem as douradas águas, levando a todos os lábios o reflexo da tua alegria!&lt;br /&gt;Olha! Esta taça quer de novo esvaziar-se, e Zaratustra quer tornar a ser homem”.&lt;br /&gt;Assim principiou o caso de Zaratustra.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/32811404-115570596632767040?l=nietzschebrasil.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://nietzschebrasil.blogspot.com/feeds/115570596632767040/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=32811404&amp;postID=115570596632767040&amp;isPopup=true' title='7 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/32811404/posts/default/115570596632767040'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/32811404/posts/default/115570596632767040'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://nietzschebrasil.blogspot.com/2006/08/assim-falou-zaratustra.html' title='ASSIM FALOU ZARATUSTRA'/><author><name>Alexandre Anello</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06749747605638893158</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='31' height='32' src='http://bp2.blogger.com/_L5qoaf3Xi3U/SE3s_fYeVLI/AAAAAAAAABo/CvlzcwYBP3c/S220/Baselworld2005.JPG'/></author><thr:total>7</thr:total></entry></feed>
